•    
  •  

Para ler os capítulos anteriores clique aqui

Para ler este capítulo ouvindo a trilha sonora de Luísa, clique no player abaixo.

Capítulo 25: Última noite: dúvidas e incertezas

(por CarolF, adicionado em 7 de Dezembro de 2003)

Beijaram-se delicadamente. Mariana, entretanto, continuava inquieta:

- Mas me conta a boa notícia…

Luísa enfim parou de beijá-la e sorriu:

- Poderemos ficar mais esta noite. Você quer meu amor? – perguntou, segurando o

rosto da menina.

Mariana suspirou de satisfação. Pulou no colo de Luísa, agarrando-a pelo pescoço.

Luísa se surpreendeu, e a segurou com força, sorrindo:

- Vem cá, pesadinha.

As duas caíram na cama, felizes. Luísa fechou os olhos, imaginando o quanto seria

bom. Mas antes precisava voltar ao trabalho.

A noite finalmente chegou, com temperatura agradável, um pouco quente. Luísa

bateu na porta do quarto de Mariana. A jovem atendeu com um sorriso lindo, com

a blusa prateada que Luísa gostava e uma saia preta. O mesmo rosto de menina.

Luísa a agarrou pela cintura, batendo a porta:

- Nossa, como você está bonita… – disse, agarrando-se ao corpo da jovem.

- Você também está linda… – disse Mariana, tentando afastar-se um pouco para

enxergá-la direito.

Luísa sabia se vestir. Era reservada, mas deixava escapar certa sensualidade.

Naquele dia, ela estava com os ombros descobertos. Quando Mariana a via assim,

enchia-se de orgulho por aquela mulher linda e inteligente ser sua:

- O que foi Mariana?

Mariana acordou de seus pensamentos. Luísa a abraçou:

- O que foi que de repente ficou calada? – perguntou.

- Nada… – respondeu Mariana – é que não consigo te achar uma mulher normal.

Você é bonita demais.

Luísa sorriu e segurou forte a mão de Mariana:

- Eu é que tenho sorte de ter você… – disse, lembrando que era a última noite das

duas no Rio de Janeiro.

Vanessa e Fernanda chegaram, acompanhadas de dois rapazes. Vanessa os

apresentou. Dois homens altos, um deles sardento, com a barba um pouco rala. O

grupo saiu em dois carros. Os homens em um, as mulheres em outro, atrás. No

caminho, a loira comentou que eles eram gays, mas apenas amigos um do outro.

No restaurante, os dois falavam sem parar. O sardento, mais comunicativo, pareceu

ter adorado Luísa. A elogiava de um em um segundo. Luísa gostava, sorria e

agradecia. E ele continuava a encher a boca de vinho e a dizer tais coisas. Luísa

não parava de sorrir para Mariana. E a conversa seguia animada. Mariana bebeu

uma taça cheia de vinho, e quando pediu outra, Vanessa disse de brincadeira:

- Cuidado, não vá exagerar…

Luísa imediatamente retrucou, sorrindo:

- Deixa beber…

E disse isso com um olhar tão desejoso, que todos notaram bem. Ela mesma

entregou a bebida a Mariana. Os quatro ficaram olhando a cena e trocaram olhares

entre si, como cúmplices. Enfim, parece que houve abertura para se falar alguma

coisa. Fernanda apoiou os cotovelos sobre a mesa, inclinando-se na direção de

Luísa, com a intenção de perguntar se eram namoradas, mas Luísa olhou tão séria

que ela mudou de planos. O olhar sério era uma característica de Luísa que inibia

um pouco as pessoas. Notando a situação, Mariana, já um pouco sob o efeito do

vinho disse sorridente, como se acabasse de aterrissar no local:

- Vamos numa boate gay?

- Você gosta? – perguntou à loira sorrindo, como se falasse com uma criança de

cinco anos.

Luísa franziu a testa. Não gostava que Mariana se mostrasse tanto. E a loira parecia

ter se encantado por ela desde a igreja. O sardento então explicou que eles já

estavam mesmo pensando em ir a um lugar gay. Todos estavam curiosos para

saber que tipo de relação havia entre Mariana e Luísa e a verdade é que só não era

mais óbvio que elas eram namoradas por causa da diferença de idade. Luísa, apesar

de não dar muita abertura para perguntas, não se importava que soubessem. Já

estava um pouco esgotada de tanto fingimento e sabia que ia sofrer novamente com

à volta para a França. Só queria aproveitar a noite ao lado de Mariana. Aos poucos,

todos foram se conhecendo melhor e entendendo que elas eram sim namoradas. E

chegando à boate, não poderia ser mais claro.

Luísa segurou a mão de Mariana e se afastou do grupo. Sentaram num lugar um

pouco mais reservado onde havia mesas e a música não estava tão alta:

- Quer beber mais alguma coisa, anjinho? – perguntou Luísa.

- Não, obrigada. Vem, senta aqui mais perto de mim.

As duas se juntaram e se abraçaram. Mariana fechou os olhos e ficou respirando o

cheiro gostoso que Luísa tinha. Luísa encostou as costas e a cabeça na parede, e

ficou olhando os lábios de Mariana, que ela dizia serem gostosinhos. E eram

mesmo, um pouco carnudos, vermelhos, macios. E tinham um desenho que era só

deles, daqueles lábios, daquela menina. E quando abria o sorriso, os belos dentes

brilhantes, alinhados. E era gostoso quando ela mordia com aquela boca e dentes, e

com violência, o ombro bem perto do pescoço, jogando-se por cima, pesada e

quente. Luísa pensava todas essas coisas e Mariana sorria feito anjo. Será que era

tão atraente de propósito? Mariana se aproximou mais ainda e a beijou no rosto:

- Posso te beijar na boca agora? – perguntou.

Luísa sorriu e ficou esperando pelo beijo. Mariana a beijou. E se abraçaram mais e

mais forte. Silêncio novamente. Luísa segurou as mãos de Mariana:

- Mariana, desta vez vamos conversar, vamos combinar alguma coisa, por favor -

sugeriu meio angustiada.

- Eu vou te telefonar, se você me der um telefone que eu não precise falar francês.

- Mariana, como você vai ligar da sua casa para a França? É muito caro e vai

aparecer na conta telefônica. Seus pais vão acabar desconfiando.

- Posso te escrever cartas…

- Sim, carta é uma boa opção – disse Luísa ainda pensativa, inquieta, como se nada

pudesse ser capaz de resolver aquela angústia esquisita.

Luísa esfregou os olhos e baixou a cabeça. Os cabelos caíram para frente dos

ombros:

- O problema, Mariana, é que quando eu me afasto de você, desaba sobre as

minhas costas todo o problema, toda a minha responsabilidade sobre isso tudo. Eu

sinto vontade de sumir da sua vida. Quem sabe assim eu te dou chance de

encontrar alguém que corresponda às suas expectativas.

De onde Luísa tirou aquilo tudo de repente? Mariana a segurou pelos braços:

- Ninguém atende melhor as minhas expectativas do que você, Luísa. Ninguém.

Meu desejo é ter você, por favor, não diz essas coisas – pediu.

Luísa continuou de cabeça baixa:

- Mariana, pensa. Como vamos assumir esse relacionamento? Somos duas

mulheres, eu sou divorciada, tenho uma filha quase da sua idade… meu Deus sou

sua professora e tenho o dobro da sua idade.

- Não diz essas coisas, por favor. Escuta, você não tem o dobro da minha idade,

você apenas está com o dobro da minha idade. Ano que vem já não terá mais. Ou

por um acaso para cada ano que eu envelheço você envelhece dois? – respondeu

Mariana, esboçando um sorriso, querendo fazer Luísa sorrir também.

Mas Luísa continuou séria. Mariana tentava ser otimista:

- E você não é mais minha professora. Daqui a dois anos ninguém vai lembrar que

um dia fomos professora e aluna. Tudo passa, as coisas se ajeitam no seu devido

tempo.

Os argumentos de Mariana não ajudavam muito. A única coisa que fazia Luísa

esquecer os problemas eram aqueles olhos meigos, aquele sorriso sedutor, e aquele

jeito briguento e corajoso que Mariana tinha. Estando longe, só o racional

funcionava. E a razão dizia que era loucura, estupidez levar aquilo adiante. Cara a

cara era impossível, irresistível:

- Mariana, você é jovem, tem muito tempo ainda pela frente. Você um dia pode

querer casar, construir uma família, ou sei lá, encontrar uma mulher da sua idade,

que tenha mais tempo para você – disse Luísa.

Mariana murchou e se encolheu. Seus olhos se entristeceram:

- Você está subestimando o meu amor, por causa da minha idade. Acha que eu sou

volúvel. Acha que se sumir da minha vida, eu simplesmente vou esquecer tudo,

não é mesmo?

Mariana agarrou novamente Luísa pelos ombros, cravou seus olhos nos dela e

disse:

- Ninguém vai significar para mim o que você significa. Ninguém vai entrar na

minha vida da maneira que você entrou. Você não vê? Você não sente essas coisas

também? Ninguém vai me tocar da maneira que você me toca, nunca vai ser

completo. Mas, Luísa, se você sumir de novo, da maneira que você fez, sem me

dar chance de conseguir te encontrar, eu não vou te perdoar. Nunca mais. – disse

Mariana, nervosa, quase gritando.

Depois que disse tudo aquilo, desabou, caíram as lágrimas e Mariana correu pelo

meio da multidão em direção ao banheiro. Só então Luísa se deu conta que a

música tocava alta e que haviam pessoas dançando ali ao redor. O peito doía,

parecia haver uma coroa de espinhos dentro. Luísa tinha a impressão que seria

apedrejada em praça pública se descobrissem o envolvimento das duas. Poucos

entenderiam. Será que alguém a apoiaria? Luísa convivia com pessoas muito

conservadoras. Grande parte delas hipócritas. Casamentos de fachada, famílias

desestruturadas, transgressão de leis, de normas, machismo, preconceito racial,

tudo sob a máscara do fingimento, do consentimento velado. Sabia bem como

aquelas cabeças funcionavam. Curvou-se e começou a chorar em silêncio, com as

mãos cobrindo o rosto, sozinha. Onde estaria Mariana?

Quando sentiu a presença de Vanessa e Fernanda, enxugou as lágrimas, tentou

disfarçar, mas não dava, estava arrasada.

- Cadê a Mariana? – perguntou à loira, novamente como se falasse com uma

criança.

Luísa olhou para cima e viu as duas em pé, de mãos dadas, sorridentes. Tentou

sorrir também. Quem dera ela e Mariana estivessem tão felizes assim. Notando a

tristeza de Luísa, Fernanda sentou-se e segurou suas mãos:

- O que houve? – perguntou, tentando ajudar.

A loira sentou-se também e segurou as mãos das duas. Luísa sentiu uma energia

boa naquele gesto. Respirou fundo, tentou organizar as idéias e finalmente

respondeu:

- Estou voltando pra França amanhã. E ela vai ficar aqui no Brasil.

Luísa continuou tentando explicar mais:

- Acabei de magoá-la. Se ela fosse um pouco mais velha, três anos que fossem eu

juro que a levaria daqui comigo. Mas, meu Deus, ela ainda mora com os pais. Não

consigo ver alternativa.

As três se abraçaram. Difícil dizer alguma coisa diante de uma situação tão difícil.

Luísa, no meio do abraço, sorriu, lembrando de tudo o que vivera ao lado de

Mariana:

- O dia que a Mariana falou comigo pela primeira vez, eu senti algo naquela

menina. A presença dela me perturbava, os olhares dela mexiam comigo. Eu achei

que estivesse enlouquecendo… – disse perdida em lembranças, como se falasse

consigo mesma.

Vanessa e Fernanda prestavam atenção, com olhar fixo. Luísa continuou dizendo:

- Mas confesso que se ela não tivesse tido coragem, eu nunca teria. De maneira

nenhuma. Se não fosse por tudo o que ela fez até hoje, não estaríamos mais juntas.

Ninguém me dá mais coragem do que ela. Quando nos afastamos, me sinto

perdida.

Vanessa apertou mais ainda as mãos de Luísa, tentando encorajá-la:

- Então vamos atrás dela.

E foram caminhando pelo local. Quando Luísa viu Mariana sentada sozinha, correu

em sua direção e a abraçou:

- Me desculpa Mariana, por favor…

A segurou forte:

- Vem cá, levanta, me abraça. Desculpa. Só quero você. Não quero que você tenha

outra pessoa jamais. Perdoa-me as coisas que eu disse, eu não sinto nada daquilo,

você sabe.

E as duas ficaram ali, coladas uma na outra, paradas, no meio da multidão

alucinada. Todos dançando e elas imóveis, minuto após minuto, tentando impedir o

tempo de seguir seu curso.

This post have 5 Comments. Would you like add one?

  • Kitchen Gadgets - 20 de setembro de 2010

    Wow!, this was a top quality post. In theory I’d like to write like this too – taking time and real effort to make a good article… but what can I say… I procrastinate a lot and never seem to get something done

  • Eni - 19 de junho de 2010

    Taty,
    O amor é assim mesmo né, um tanto louco sem noção. Amamos, sentimos falta, queremos sumir, e muitas vezes podemos perder quem realmente amamos, nem sempre dá tempo de tentar explicar e pedir desculpas, porém não custa tentar.
    Esse romance chega a ser eletrizante..parabéns!!!
    bjs
    Eni

  • Jeh - 10 de junho de 2010

    Cada vez me emocionando mais *-*

    As vezes nao importa quão dificil seja a situaçao, um simples abraço de quem a gente ama nos afasta de tudo.. Pena que apenas por um momento =/

  • BruneLLa França - 10 de junho de 2010

    *_______________________*
    às vezes tudo q a gnt precisa são esses abraços de parar o mundo…
    Obrigada por mais esse capítulo, Tati.

    beijos

  • Hélia - 9 de junho de 2010

    Ah, que lindo…

    O amor é assim mesmo, os relacionamentos são bem assim…

    Às vezes a gente se perde, se empolga com coisas que, na verdade, não são importantes… E quase perde quem realmente importa em nossa vida!!

    Não devemos pensar duas vezes antes de correr atrás de quem amamos, pedir desculpas, dar carinho, demonstrar amor…

    ^^

    Beijos!!

    Ah!! Amei a trilha sonora, amo essa cantora aí, viu?? ^^

Leave your reply here

Armazém das palavras

Networkedblogs

Assine

Insira seu endereço e-mail e receba as atualizações do Portal:

Delivered by FeedBurner


Since – 2009

Content Protected Using Blog Protector By: PcDrome.