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Capítulo 26: Viagem de volta
(por Carol F, adicionado em 7 de Dezembro de 2003)
Mariana voltava para casa. Havia poucos passageiros na aeronave e Mariana
sentava-se sozinha, no canto. O olhar perdido atravessava a janelinha e via o céu
cinzento do lado de fora. Os últimos momentos com Luísa foram difíceis mais uma
vez. Muito difíceis. Luísa havia chorado também. Fernanda e Vanessa as ajudaram
bastante. Trocaram telefones, endereços e confidências. Mariana mal conseguia
respirar. Algo comprimia seu peito. Ao mesmo tempo, estava satisfeita por ter
reencontrado Luísa. Às vezes sorria, lembrando dela na praia, com o olhar
iluminado.
Desembarcou na hora do almoço. Recolheu a mala pesada e avistou seus pais.
Ficou feliz. Os dois, abraçados a esperavam. Aproximou-se e os beijou no rosto:
- Como foi a viagem, minha filha? – perguntou o pai.
Mariana sentiu na maneira de perguntar que havia algo estranho.
- Muito bom. Valeu à pena – respondeu, desconfiada.
Mariana era intuitiva. Sentia que havia acontecido alguma coisa. Os pais
continuavam em silêncio, ao invés de conversar coisas normais do dia-a-dia:
- E vocês? Tudo bem por aqui? O Dan e a Larissa estão bem? – perguntou,
referindo-se aos irmãos.
- Sim, tudo bem. Deixa que eu carregue para você. – disse a mãe, pegando a
frasqueira da mão de menina.
Entraram no carro. O silêncio insistente incomodava:
- E a vovó, sarou da gripe?
- Sim, está bem melhor.
Mariana não sabia mais o que dizer. Ficou olhando pela janela:
- Gostei que os dois vieram me buscar. Geralmente vem só o Dan, ou só o pai…
Silêncio novamente. Nem ao menos um sorriso. Mariana teve desta vez certeza
absoluta de que algo estava acontecendo. Encolheu-se e se calou no fundo do carro.
O caminho para casa parecia uma eternidade. Assim que o carro parou, Mariana
pulou lá de dentro como se saísse de um calabouço. Entrou em casa e carregou as
malas para o quarto. Do meio do corredor, ouviu seu pai gritar:
- Depois vem aqui na sala que queremos conversar…
Sentiu o peito congelar. Seus pais não eram do tipo que se impunham pelo medo,
mas Mariana sentiu o corpo tremer de pavor. Ninguém poderia descobrir nada
entre ela e Luísa, jamais. A cabeça estava a mil. Mariana respirou fundo, tentou
pensar tentou se acalmar e foi até a sala. Os pais aguardavam sentados. Assim que
Mariana apareceu, o pai se levantou:
- Mariana, queremos conversar com você…
O clima estava tenso. A mãe continuou sentada, como se fosse apenas a sombra do
marido:
- O pai do Tiago telefonou diversas vezes aqui em casa. Nós achamos que o seu
envolvimento com essa criança ultrapassou o limite aceitável.
Mariana arregalou os olhos:
- Fui eu mesma que dei o telefone a ele, caso precisassem de alguma coisa.
Aconteceu alguma coisa com o Santiago? – perguntou apreensiva.
- Mariana, eu e sua mãe discordamos da maneira como você tem agido com
relação a essa criança. Não aceitamos esse tipo de envolvimento. Você está
expondo toda a sua família a esse bando de aproveitadores.
Mariana sentou-se, como se não acreditasse. Respirou fundo. Tentar defender o pai
de Tiago seria pior:
- Pai, eu não queria envolvê-los nisso. Quero ajudar, tenho meu próprio dinheiro.
Isso só aconteceu porque eu viajei. Me desculpa. Por favor, me diga se o Tiago
está bem.
A mãe respondeu lá de trás:
- Sim, está tudo bem com…
O pai interrompeu:
- Me deixaeu continuar. Isso não é tudo, Mariana.
Mariana sentiu que o pior estava por vir. Preparou-se para ouvir a bomba:
- Sabemos por que exatamente você foi a esse evento no Rio de Janeiro – disse o
pai, com uma espécie de repugnância.
Mariana olhou os dois ali, olhou em volta. Respirava com dificuldade. Tentava
pensar. Não havia como ser natural. Não havia como explicar. Se fosse qualquer
outra mulher, mas com Luísa era inexplicável. Mariana bateu os olhos na mesa de
jantar. Sobre ela estavam os papéis impressos sobre o encontro científico.
Lembrou-se que havia grifado todos os nomes de Luísa. As fotos de Luísa também
estavam ali, entre os papéis. Sentiu-se invadida. Estava tudo guardado. Haviam
mexido em suas coisas. Sentiu sua vida vasculhada, sua privacidade escancarada.
Os dois a olhavam, como dois inquisidores. O pai continuou:
- Telefonamos diversas vezes para o hotel onde você estava e não a encontramos
nenhum dia no seu quarto – disse o pai, virando-se de costas, como se mal
conseguisse olhar para a filha – e, para completar, alguém teve a audácia de nos
telefonar alertando sobre vocês duas.
Quem teria feito isso? Mariana lembrou-se do velho, do que ele havia feito com ela
no hotel. Poderia muito bem ter sido ele. Qualquer uma das listas de presença
tinham o telefone de Mariana. Assim como a ficha de inscrição, o cadastro no hotel
ou qualquer outro documento. É provável que tivesse sido ele mesmo. Mau caráter.
Mariana nunca sentiu tanta raiva. Ninguém tinha o direito de invadir sua vida
daquela maneira. Mas, ainda desesperada, pensou em Luísa. Como poderia
protegê-la? Infelizmente, não conseguiria negar. Travaria em sua garganta.
Mariana ficou olhando para o chão, perdida. E viu sua irmã caçula assistindo tudo
da escada, sentada nos degraus. Olhou novamente para o pai virado de costas. E
permaneceram em silêncio por vários minutos:
- Por que você não diz alguma coisa, minha filha? Se defenda. Eu e seu pai só
queremos entender… – disse a mãe, na esperança de que tudo não passasse de um
engano.
- Não tenho nada para dizer – respondeu Mariana, ressentida.
O pai foi voando na direção da menina, tão repentinamente que ela achou que fosse
apanhar pela primeira vez em sua vida. A agarrou pelos ombros e a sacudiu:
- Isso é um descaramento dessa sua professora. Você nos envergonha, Mariana.
Expõe-nos ao ridículo, a ponto de me telefonarem para falar sobre minha própria
filha, como se eu tivesse a educado para ser uma vagabunda.
Mariana horrorizou-se com tais palavras. Seu pai nunca havia falado daquela
maneira. Começou a chorar:
- Vocês querem acabar com tudo o que eu amo – gritou, com os olhos cheios de
rancor.
Correu para o quarto, pegou suas malas, nervosa. Arrastou tudo pelas escadas. A
mãe foi atrás, tentar impedir que a filha descesse. O clima estava tenso, todos
estavam nervosos. Mariana queria sumir dali, desaparecer, morrer. Vivia um
pesadelo. Atravessou a sala, pegou os papéis e as fotos sobre a mesa e saiu, foi
embora, sumiu dali. Andou três quadras e sentou na calçada, completamente
perdida. Para onde iria com aquela mala? Nem ela sabia. Só sabia que tinha que
sair dali. Armou-se uma chuva forte, que despencou sobre a cidade. Mariana
telefonou para Sílvia, e, desesperada, pediu que a buscasse.
Capítulo 27: Fim de ano
(por Carol F, adicionado em 7 de Dezembro de 2003)
Mariana pediu que Sílvia a deixasse em um hotel, mas ela quis levá-la para sua
casa de qualquer maneira. Sentiu que Mariana não estava bem para ficar sozinha:
- De jeito nenhum. Você fica conosco por um tempo.
E, enquanto dirigia, olhava a menina ali no banco do lado, calada, fechada,
molhada da chuva. Mariana estava exausta. Aparentava estar arrasada. Ela e Luísa
não haviam dormido a noite toda. Dizem que as coisas ruins acontecem de uma
vez. Estava sendo assim. Luísa havia partido. E agora, seus pais a tratando daquela
maneira. Mas Mariana era obstinada. Pegou o celular e telefonou para uma
psicóloga conhecida que talvez tivesse notícias do Santiago. Descobriu que ele
estava morando com a avó no Rio Grande do Sul. Chegando à casa de Silvinha,
tomou um banho quente e despencou sobre a cama. Dormiu por muitas horas.
Acordou, sentindo-se ainda cansada. A casa parecia estar vazia. Olhou no relógio.
Eram quase onze e meia da noite. Levantou e caminhou até a janela do cômodo.
Ainda chovia. Encostou a testa no vidro e ficou pensando. Talvez fosse hora
mesmo de sair de casa. Em poucos dias estaria formada, já tinha seu próprio
dinheiro. Não era muito, mas era o suficiente. Só não queria que fosse assim.
Sentia medo de pensar que talvez seus pais pudessem fazer algo contra Luísa. Na
verdade, tudo que achava que sabia sobre eles havia se perdido no momento em
que seu pai disse aquelas coisas. Pareciam desconhecidos agora. Segurou o colar
que ganhara de Luísa. Conseguiu sorrir, lembrando do sorriso dela.
Caminhou até a porta, olhou pelo corredor. Pelo jeito estavam dormindo. Mariana
queria ir ao banheiro, mas estava um pouco constrangida de ter que andar sozinha
pela casa. Planejou ir embora no dia seguinte, o mais rápido possível. Precisava
ficar sozinha para repensar sua vida. Andou pelo corredor, atravessou o quarto
onde Sílvia dormia e foi ao banheiro. Na volta, olhou pela porta e viu o contorno
das duas abraçadas, dormindo juntas, no meio da penumbra. Ficou olhando por
algum tempo. A perna de Silvinha entre as coxas da namorada, as duas enlaçadas.
Que mal havia naquilo? Por que tanta aversão? Lembrou-se do pai. Uma lágrima
escorreu pelo rosto. Voltou para cama e tentou dormir.
Aquele fim de ano foi muito difícil para Mariana. Foi um daqueles períodos
capazes de transformar as pessoas. Silvinha e sua namorada convenceram Mariana
a ir a sua própria festa de formatura. Mariana ficou uma semana na casa delas e
depois foi para um apart-hotel. Não se comparava ao conforto de estar em casa,
com a família, mas era o local só dela, onde ela podia se sentir livre. Mariana
conseguiu ganhar muito dinheiro ajudando professores e outros profissionais a
finalizarem relatórios, trabalhos, teses. Com os prazos apertados e o tempo corrido,
as pessoas pagavam bem. Mariana era boa nisso, tinha bastante habilidade. Havia
aprendido tudo com Luísa. Chegou a trabalhar finais de semanas inteiros.
Para sua surpresa, os pais resolveram aparecer na festa de formatura. Mas a
presença deles significou mais um esforço de se tentar manter as aparências do que
uma possibilidade de reaproximação. Mariana dançou com o pai, posou para fotos
com a família, mas era tudo fachada. Ninguém trocava uma palavra. Recebeu
muito apoio dos colegas que souberam que Mariana havia brigado com os pais.
Mas na verdade ninguém sabia o real motivo daquele desentendimento. Mariana
quis ir embora cedo. Quando estava saindo, notou que sua mãe vinha atrás. Com
semblante cansado se aproximou da menina. Mariana não sabia se sorria ou não.
Esperou que a mãe dissesse alguma coisa:
- Minha filha, eu e seu pai achamos que você deve ficar com seu carro – disse,
tirando a chave de dentro da pequena bolsa.
Decepção. Mariana esperava alguma palavra de carinho. Ficou olhando atônita
para a chave. A mãe continuou:
- Foi um presente. Compramos para você. Está até no seu nome. Leve. – disse,
estendendo mais ainda o braço para que Mariana pegasse a chave.
Mariana olhou bem a fisionomia da mãe. Ela sofria também. Talvez fosse uma
maneira, ainda que sofrível, de demonstrar alguma preocupação:
- Obrigada, mãe – disse Mariana, olhando para o chão.
Quando olhou de volta, a mãe já estava sumindo no meio da multidão. Pelo jeito as
coisas seriam difíceis mesmo. Mas Mariana estava mais forte, preparada para
enfrentar o que quer que fosse. O Natal se aproximava. Mariana recebeu um
convite para passar na casa de uma amiga de infância. Silvinha também a convidou
para passarem juntas. Antigos amigos da escola também a convidaram. Mas a
verdade é que ela queria mesmo é ficar sozinha.
Acabou acontecendo algo inesperado. Uma antropóloga chamou Mariana para
ajudá-la em um trabalho que dizia ser urgente. Era uma senhora já de quase setenta
anos, agitada, de voz aguda, com cabelo branco, desarrumado. Pagaria bem. E, por
incrível que pareça, acabou passando o Natal com ela. E foi uma das melhores
festas de sua vida. O nome dela era Edith. Mariana não havia visto tanto vigor em
alguém, tanta boa vontade, tanto entusiasmo, e se comprometeu a ajudá-la até o
início de janeiro. Lembrou-se da promessa de Luísa de vir entre o Natal e o Ano
Novo, mas, por algum motivo, pressentiu que não viria e aceitou a oferta de Edith.
E quando viu a passagem de ano acontecer, Luísa não dar notícias, e aquele
pressentimento se concretizar, sentiu uma enorme decepção. Desesperada, chorou
no colo de Silvinha:
- Onde está Luísa agora que preciso tanto dela, Silvinha? – perguntou, chorando.
- Calma Mariana. Deve ter acontecido alguma coisa que a impediu de viajar…
A namorada de Silvinha sentou com as duas e afagou os cabelos de Mariana. As
duas se olharam, preocupadas com a menina:
- Mariana, você precisa ser forte – disse Silvinha, obrigando Mariana a manter-se
sentada, erguida.
- Eu sou forte, Sílvia. Você está vendo o meu esforço. Mas parece que tudo está
ruindo de uma só vez – disse Mariana.
- Além de tudo, você tem trabalhado além da conta. Está muito cansada – disse a
namorada de Sílvia.
Era verdade. Mas manter-se ocupada era o que a ajudava naquele momento. De
repente, Mariana resolveu:
- Quero recomeçar minha vida em algum outro lugar. Vocês me ajudam a ir
embora daqui?
- Mas ir embora para onde, Mariana? – perguntou Sílvia, confusa.
- Não sei. Qualquer lugar. Já não tenho essa porcaria de diploma? Posso trabalhar
em qualquer lugar – disse.
- Mas Mariana, pensa bem… – disse, Sílvia.
- Não, está decidido. Eu preciso recomeçar – disse, com olhar firme.
As três ficaram em silêncio. Silvinha estava preocupada:
- Não acha melhor amadurecer mais um pouco essa idéia?
- Não – respondeu Mariana, com aquele jeito obstinado – está decidido. Já quero
começar o ano em outro lugar. Não fico aqui nem mais uma semana. Não tenho
nada mais que me prenda nessa porcaria de cidade. Mais nada!
Silvinha olhou com aqueles olhos verdes meio tristes. Mariana se deu conta que
havia sido indelicada:
- Desculpa gente. Desculpa. Vocês têm sido tudo para mim, sabia? Mas se eu
continuar aqui, com todas essas lembranças, não vou conseguir superar essas
coisas.
E abraçou as duas. A namorada de Silvinha perguntou:
- Mariana, mas e a Luísa?
Mariana olhou para o chão, segurou o choro:
- Ela tem meu e-mail. Me encontrará em qualquer lugar, se um dia quiser.
Levantou-se e foi em direção a janela. Ficou olhando para o lado de fora, quieta,
pensando na pergunta que havia acabado de responder. Não entendia por que mais
uma vez Luísa tinha feito aquilo. Quis esquecer:
- Silvinha posso usar o telefone?
Mariana chamou um taxi e foi buscar o carro na casa dos pais.







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Um forte abraço,
Dário Dutra
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Taty,
Masi uma vez vc me surpreende com o texto, espero anciosa por momentos felizes nesse romance…bjs
Eni
É tambem preciso partir….não sei como e acredito qeu se tivesse alguém quebraria todas as barreiras e dificuldades e teria ido, mas como não tem vou ficando…isso é o seu conto que nos sucita a pensar…esta ótimo amiga, muito bom mesmo..essa coisa de não ter contato eu sei como é…aiai doi demais…parabéns!
beijos no seu coração
Eu às vezes queria ter essa determinação da Mariana…
E preciso ganhar dinheiro, já!
*chorei*
beijos
Bru