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Capítulo 30: Encontrando Santiago
(por Carol F, adicionado em 21 de Dezembro de 2003)
Edith tinha uma percepção de dar medo. Às vezes parecia enxergar a alma de Mariana através de seu corpo. E suas palavras se concretizariam como uma profecia, uma doce e sábia previsão daquela senhora de sensibilidade aguçada e alma inquieta.
Carlos foi a primeira pessoa com a qual Mariana falou ao chegar à cidade. Era um homem muito bonito. Cabelos encaracolados, rosto de soldado romano, ombros fortes, sorriso branco, grande e perfeito, completamente dentro dos padrões de beleza nacionais e internacionais. Lindo e excessivamente delicado, excessivamente humano e doce, e ao mesmo tempo com um olhar esperto e zombeteiro. Carlos era dessas pessoas que percebem as coisas antes de todos. E que falam as coisas que ninguém tem coragem de dizer. Mariana “apaixonou-se” por ele.
Carlos foi muito receptivo e ajudou Mariana em tudo nos primeiros meses, inclusive a acompanhou num de seus primeiros desafios: ir atrás de Santiago.
Mariana fez umas cinco ligações interurbanas até descobrir um provável endereço.
Carlos a buscou em casa e foram juntos. Mariana, acostumada a sempre andar sozinha, começou a gostar de tê-lo junto para dar força.
Carlos dirigia rápido, afobado, parando o carro de vez em quando para conferir o mapa. Mariana, no banco do lado, ia dizendo a direção. As ruas grandes e asfaltadas foram dando lugar a ruelas cada vez mais estreitas e retorcidas. Por fim, o asfalto acabou e a calçada cedeu espaço a mato, barro e às vezes um pouco de lixo. O carro já passava com dificuldade. Carlos desceu, com a testa suada:
- Meu Deus, Mariana. Esse garoto é branco ou é índio?
Mariana riu, mesmo sem entender direito:
- Calma Carlos. Acho que já estamos perto.
Carlos ajeitou os cabelos, com aquele jeito delicado:
- Sim, porque o que procuramos eu acho que é uma aldeia. Reparou que as ruas do mapa acabaram?
Mariana olhou bem:
- Então vamos até aquele botequim perguntar.
Deixaram o carro e seguiram a pé. O local tinha umas casinhas lado a lado, crianças de bicicleta e algum movimento de carros e ônibus. Porto Alegre era lindo para lado de lá. Onde Santiago morava tudo parecia esquecido. Após quase vinte minutos de caminhada, chegaram até um posto de gasolina que servia como ponto de referência, num trecho de rua asfaltado. Virando à esquerda, a passagem estreitou-se. Pequenas poças de água atrapalhavam o caminho. Enfim chegaram a um conjunto de casinhas simples, uma espécie de vila, com muro de arame e madeira. Um cachorro pequeno esboçou um latido fraco e tímido. Carlos achou melhor esperar do lado de fora. Mariana arrastou o portão e entrou:
- O Santiago mora aqui? – perguntou a uma mulher que varria o chão.
- Mora ali – respondeu, apontando o dedo, com ar desinteressado.
Mariana caminhou em direção à casa de tijolos e bateu na porta. Uma senhora com camiseta sem manga e lenço no cabelo atendeu e olhou Mariana com certo estranhamento:
- Pois não?
- A senhora é avó do Santiago? – perguntou, notando que ela tinha os mesmos traços do menino.
- Sim, por quê?
Mariana explicou que já conhecia o menino e queria saber como ele está. E, enquanto conversavam Mariana o viu encostado na porta da cozinha, observando a conversa:
- Oi, meu amor – disse a ele.
Ele a reconheceu e sorriu, mas continuou encostado na porta, tímido. Mariana olhou bem e notou que ele estava com os dentinhos cariados. Que tristeza, pensou.
Com muito jeito, conseguiu convencer aquela senhora de suas boas intenções.
Enfim foi convidada para entrar e o pegou no colo. Estava bem mais pesado, com quase quatro anos. Tiago segurava um pacote de biscoitos e tinha o mesmo jeito calado e observador de antes. Enquanto conversava, observava os bracinhos cheios de brotoejas. Desesperou-se por dentro, mas se controlou, e continuou conversando normalmente:
- Ele está indo na escola? – perguntou.
- Ainda não.
Mariana pensou em pedir para levar o menino para almoçar com ela, mas achou que ainda era cedo. Achava que não podia chegar assim na vida daquela família, ficar fazendo perguntas e pedindo para levar a criança para sair:
- Vocês estão inscritos em algum programa social?
Mariana conversou um pouco e pediu para voltar na próxima semana. A avó concordou e assim começou uma aproximação lenta, sem muita pretensão, afinal a jovem ainda tinha que resolver problemas de sua própria vida, como arranjar um emprego. Mariana se despediu do menino, já cheia de saudade, dando um abraço forte e gostoso:
- Semana que vem eu volto, tá?
O menino sorriu.
No caminho de volta, contou tudo para o Carlos:
- Ele está bem diferente que da última vez que o vi. Sabe, a pobreza deixa marcas nas pessoas – disse, referindo-se aos dentes cariados do menino.
- Ah, isso é normal, Mariana. Assim que a avó liberar, a gente o leva no dentista.
Deve ser simples de resolver – disse, com aquele jeito despreocupado.
Carlos continuava dirigindo. Sabia de cor todas as ruas e atalhos da cidade. E onde quer que passe, apontava e contava a Mariana o que era, qual era o nome e as experiências que já tinha vivido ali. Mariana se divertia com aquele jeito dele.
Capítulo 31: Amizade
(por Carol F, adicionado em 21 de Dezembro de 2003)
Demorou um pouco mais que o esperado para as coisas se ajeitarem. O emprego só apareceu quase três meses depois. O apartamento que Edith emprestou já era mobiliado, o que reduziu bastante os gastos de Mariana. Tudo muito antigo, mas a maioria das coisas ainda funcionando. Para Mariana, o fogão era peça de museu.
Mas, funcionava. A geladeira e a máquina de lavar roupa também. Carlos ficava deslumbrado e dizia a Mariana que ela tinha muita sorte de ter conseguido aquele apartamento. Enquanto folheava os livros antigos na estante, continuava dando palpites:
- Eu acho que você deveria comprar uma televisão nova. Já que você economizou tanto, Mari. Aí você compra uma 29 polegadas e me chama para assistir filme – disse, rindo, com jeito de moleque.
E não parava de falar:
- Veja como são as coisas. Eu ia fazer a gentileza e a caridade de te hospedar na minha casa, e agora você tem um apartamento mais legal que o meu.
- Não é meu Carlos. É apenas emprestado. – disse a jovem.
- Ingênua. Você não conhece as leis? Se você quiser, nunca mais sai daqui – disse, rindo, sabendo que Mariana ia se invocar com a brincadeira.
- De jeito nenhum eu faria uma coisa dessas, né Carlos? – disse Mariana.
E ficou olhando as costas largas do amigo, enquanto ele revirava a estante:
- Os homens devem enlouquecer por você, né?
- Sim – disse ele, virando-se para Mariana, desinibido, com um sorriso enorme.
Carlos era muito bem resolvido sexualmente. Falava de tudo sem pudor nem rodeios. Mariana não era tão solta quanto o amigo, mas gostava de conversar.
Adorava ouvir o que o ele tinha a dizer. Carlos se aproximou de Mariana:
- E você, Mari? Quando é que vai desencanar dessa sua professora?
- Não sei, Carlos – respondeu, olhando para baixo – nem gosto que você fale assim.
Carlos ficou calado um minuto, depois continuou:
- Que estranho. Seu olhar se entristece cada vez que falo nela – disse, olhando
Mariana nos olhos.
- Sinto saudade, só isso.
- Mariana, tenho amigas lindas, sensíveis e inteligentes. Já disse que eu as apresentaria a você, se você quisesse – disse, concluindo a frase depressa, já sabendo que Mariana o interromperia.
- Carlos… Por enquanto não.
O rapaz não agüentou e perguntou:
- E pretende ficar quanto tempo sem sexo? Um ano de novo? – perguntou, segurando o riso.
Carlos já sabia um pouco da história de Mariana. Já havia trocado confidências e
Mariana o fez jurar que guardaria segredo. Mariana sorriu também. Carlos sabia ser indiscreto, sabia como perturbar alguém. No fundo se divertia com as perguntas dele:
- Eu ficaria um ano de novo sim – respondeu convicta.
Carlos riu, sem acreditar. E se aproximou de Mariana, mais ainda:
- Você não sente vontade, Mariana? Sei lá, eu penso tanto em sexo. Não consigo entender…
- Sinto Carlos, sinto sim. Mas não agora.
Os dois tinham cabeças diferentes. Mariana não sabia como pensar em sexo depois de tudo o que havia acontecido. Não sabia como pensar em sexo sem Luísa. Carlos beijou o rosto de Mariana e teve que ir embora correndo. Iria encontrar-se com um amigo. Mariana ficou ali deitada na sala, pensativa. Onde está você, Luísa? Não conseguia parar de pensar sobre isso. Tudo que pensava sobre ela parecia vivo, como se tivesse acontecido no dia anterior. Mariana se lembrava do sorriso confiante, dos lábios, dos cabelos lisos, daquele rosto tão incomum e marcante. Lembrava dos olhos a todo momento, da maneira que Luísa a olhava, meio de lado, absorvida pelo sorriso de sua menina querida. Mariana tinha medo que um dia aquilo tudo se tornasse apenas uma lembrança distante.







não vejo á hora do reencontro de ambas….tomara que não demore….estou ansiaosa pra ler….e me emocionar mais uma vez.
Taty,
Muito bom, mas tá dando comichão ficar esperando para o próximo capítulo…mas saber esperar é uma virtude…QUE NÃO TENHO!!!! rs…
bjs
Eni
Ai amiga essas situações de sumiço, distancia, nossa e´tão complicado, caramba! E ficar nessa espera, sei lá, é como se a pessoa deixasse marcas em voce e ainda resta algo que voce tem a viver ali, ai nossa complicado isso!!!
beijos e parabéns!
Aguardando a proxima, na verdade o próximo encotro das duas…
Tô amando, não demora para publicar o resto
Please!!!!!!
É muito bom, parabéns!!!!!!!