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Capítulo 32: O museu

 

(por Carol F, adicionado em 21 de Dezembro de 2003)

 

Mariana estava ainda na segunda semana no emprego novo, trabalhando em um projeto da iniciativa privada. Com o dinheiro começando a entrar, pôde recomeçar a fazer planos, sentiu-se mais segura, dona de si mesma. Ter vencido o desafio a fazia irradiar confiança no olhar.

Carlos era paulista, mas apaixonado por Porto Alegre. Sabia muito sobre a história, os lugares, as pessoas. Todos os seus amores tinham sido vividos lá, pois se mudara na adolescência. Mariana, contagiada pelo entusiasmo do rapaz, adaptou-se fácil. Durante os primeiros meses, Carlos deu várias provas de que era um amigo de verdade, nas pequenas coisas do cotidiano. O rapaz era professor de literatura em cursinho e se interessava muito por artes. Era muito dedicado, estudioso. Certa tarde Mariana o acompanhou até a biblioteca de um museu. Enquanto ele pesquisava o acervo, Mariana resolveu caminhar sozinha.

O local estava um pouco vazio. Enquanto caminhava por entre as obras, viu do outro lado uma mulher sozinha. Cabelos bem presos, loiro escuro. Mariana virou-se para o outro lado. Em quinze minutos encontraria-se com Carlos na cafeteria.

Foi passeando entre as obras. Carvão, aquarela, óleo, acrílico, foi olhando uma a uma com cuidado. Deteve-se numa delas um pouco mais:

- Linda, eu também gosto – disse a mulher, aparecendo de repente.

Mariana a achou meio intrometida e continuou muda olhando a menininha que segurava flores. Achava às vezes os gaúchos muito arrogantes, avançados. O mais interessante é que ela não se preocupava em ser gentil, nem ao menos um sorriso.

E continuou dizendo:

- A artista gosta de desenhar meninas assim delicadas.

Mariana virou-se para ela e a olhou. Ela estava de perfil, olhando ainda o desenho.

Ela então virou o rosto para Mariana e as duas se olharam com certa reserva, em silêncio. Mariana achou que ela deveria ao menos se apresentar, mas ela continuou apenas ali do lado, a menos de um metro, com aquele perfume suave. Vendo os olhos azuis daquela mulher de perto, dava a ela trinta anos, no máximo, talvez nem isso. Deveria ser mais velha para justificar aquela maneira sabe-tudo de se comportar. Mas não era. Por algum motivo, Mariana irritou-se com aquela simples e delicada aproximação. Avistou Carlos lá no fundo e saiu:

- Com licença.

Para a sua surpresa, os dois se conheciam. A mulher também foi na direção de

Carlos e o abraçou. O rapaz, com aquele jeito animado e extrovertido tratou de apresentar as duas:

- Clara essa é Mariana, formada em ciências sociais, está há poucos meses aqui.

Mariana, esta é Clara, cursamos juntos algumas disciplinas na universidade.

Finalmente um sorriso discreto:

- Está gostando da cidade?

- Bastante, graças ao apoio do Carlos. Ele tem me mostrado lugares maravilhosos – respondeu Mariana, meio sem jeito com os olhos fixos da mulher em cima dela.

- O que precisar, pode contar comigo. O Carlos tem meu telefone – disse.

Carlos então a convidou para tomar um café. Clara disse que adoraria, mas estava atrasada e precisava ir. Despediu-se dos dois os beijando no rosto e foi embora. Os dois então caminharam juntos e sentaram-se nos bancos da cafeteria. Carlos, exageradamente calado, tomava o café. Mariana sabia bem o motivo:

- Tudo bem, Carlos. Pode falar… – disse numa espécie de rendição.

- Eu não vou falar nada, Mariana. Você não é criança, sabe bem das coisas…

Mariana deu um gole no café que quase queimava os lábios:

- Tem razão. Eu sei bem das coisas.

Carlos bebeu mais um pouco do café. Mariana não queria mesmo tocar no assunto, mas sabia que Carlos não ia se controlar:

- O dia que você quiser o telefone dela, eu te dou.

Mariana ficou um pouco irritada:

- O que você está insinuando, Carlos? Não vou ligar para ela com nenhuma intenção.

Carlos respirou fundo:

- Aposto que ela é muito mais bonita que a Luísa – disse de provocação.

Mas Mariana magoou-se de verdade. Era o que faltava para odiar aquela mulher para sempre. A menina perdeu toda a vontade de tomar café e continuar ali:

- Me leva embora, Carlos. 

Capítulo 33: Clara

 

(por Carol F, adicionado em 22 de Dezembro de 2003)

 

É estranho como às vezes uma frase consegue desestruturar uma pessoa. Por algum motivo Mariana se incomodou com a abordagem de Clara. Para Mariana, Carlos às vezes era malicioso demais:

- Ela gosta de mulheres por um acaso, Carlos? – perguntou Mariana, destrancando a porta do apartamento, fazendo-se de desinteressada.

Os dois entraram. O rapaz fez-se de correto:

- Mariana, da mesma maneira que você não quer que eu fale de você pras pessoas, eu não vou falar das pessoas pra você.

Mariana riu, sem acreditar que estava provando do próprio veneno:

- Ai, menino! Eu tenho vontade de te dar uma surra.

E pulou sobre as costas dele. Os dois caíram no sofá. Carlos era intocável, inatingível, e às vezes insuportável. Tinha resposta pra tudo, nunca perdia a pose.

Mariana beliscou a barriga dele entre as costelas, fazendo-o rir:

- Me solta, Mariana! – disse, levantando-se, sem graça.

Mariana ficou olhando pra ele.

- Carlos, você me entende?

Carlos arrumou os cabelos:

- Entendo Mariana. No fundo, eu te entendo. Desculpa.

E sentou-se de novo:

- Se essa sua professora mexe com você de maneira especial, invista nisso. Espere o tempo que você achar que vale a pena.

Mariana ficou olhando. Carlos continuou:

- Mas não se feche pra mulheres especiais como a Clara e tantas outras que ainda vão surgir. São relações de amizade, são relações pra vida. Sabe, eu conheço a

Clarinha há mais de dez anos. Ela é uma mulher muito especial, muito mesmo.

E respirou fundo, como se estivesse interrompendo algo que ainda fosse dizer.

Mariana ficou olhando, apreensiva:

- O que foi Carlos?

Carlos sorriu e se levantou. Pareceu que ele ia dizer algo mais. Mariana ficou de certa forma curiosa, mas desistiu de continuar perguntando. Carlos tinha razão.

Ia completar seis meses na cidade nova. Algo estava começando a mudar dentro de

Mariana. A menina estava amadurecendo rápido. Em poucos dias, Santiago começaria a estudar em uma escola período integral. Já era comum a partir daquele período o menino passar os finais de semana no apartamento de Mariana. Durante a semana ficava com a avó. Um dos momentos mais felizes era vê-lo chegar, com a mochila nas costas, pronto para ficar. Carlos às vezes aparecia, brincava de coisas de menino com ele, jogando futebol na sala e ameaçando quebrar os cristais de

Edith.

Os cabelos de Tiago eram ondulados como os de Mariana. Mariana gostava deles com a franja comprida, davam a ele uma aparência valente, corajosa. Mas a avó insistia em aparar de duas em duas semanas. Mariana já havia levado o menino ao dentista. Estava muito bonito agora. Tinha chuteira, caneleira e uniforme de time de futebol. Um azul, preto e branco do Grêmio e outro vermelho e branco do Inter.

Mariana deu um e o Carlos, de birra, outro.

Pouco a pouco Tiago foi se aproximando de Mariana, com aquele jeitinho tímido e até desconfiado de quem já passou por muitas coisas. Num sábado à noite, Mariana estava assistindo desenho com o menino na sala, na TV tela grande que havia comprado praticamente de presente para o Carlos. Por um segundo, seu corpo se rendeu ao cansaço e cochilou, e sentiu a mãozinha do menino acariciar seu rosto.

Parecia um anjo. Abriu os olhos, sorrindo. Ele sorriu também:

- Olha.

O menino voltou a fita. Já sabia mexer em tudo. Gostava de rever alguns trechos.

Mariana sentou-se do lado e olhou a cena que o menino pediu.

No mesmo instante, o interfone toca. Um casal de amigos do trabalho de Mariana estava subindo. Mariana acendeu a luz da sala e correu para lavar o rosto:

- Fica quietinho que nós vamos receber visitas.

Atendeu a porta e os cumprimentou. Os dois entraram, educados. Com certa formalidade, esperaram o convite para sentar. O rapaz aceitou um pouco de cerveja gelada. Ainda bem que Mariana havia seguido o conselho de Carlos e deixado algumas bebidas na geladeira. Tinham vindo entregar uns papéis, e aproveitaram para chamar Mariana para o casamento:

- Que beleza – disse Mariana, sorrindo – me deixaeu cumprimentá-los.

E os abraçou, conversaram um pouco. Belo casal. Pareciam se gostar bastante. De repente Tiago surge no canto da porta da sala, com cara de sono:

- Mari… – disse ele, tão manhoso e sonolento que pareceu ter dito “manhê”.

A mulher se encantou:

- Meu Deus, que lindo. Eu não sabia que você tinha um menino.

Antes que Mariana pudesse explicar, ela levantou-se e pegou a criança no colo:

- É lindo, a sua cara, Mariana. Que roupa linda de tartaruga – disse a Santiago.

- É dinossauro – corrigiu o menino, estufando o peito para mostrar as escamas.

A mulher o devolveu ao chão e falou um pouco sobre a vontade de ser mãe.

- Bom, mas nós já vamos indo. Já é tarde.

- Sim – disse o noivo, levantando-se para se despedir de Mariana.

Conversaram mais uns dez minutos perto da porta e partiram. Mariana recolheu os copos e a garrafa de cerveja e preparou Tiago para dormir. O menino tinha um quarto só para ele, com jeito de escritório, mas com uma cama de criança, escrivaninha para desenhar e um caixote de brinquedos. Recolheu as fantasias dele, os lápis de cor e papéis e enfiou tudo no caixote, que já fechava com dificuldade.

Foi até a sala de TV, desligou o vídeo e apagou as luzes. Entrou no chuveiro, exausta, esticou o corpo e deixou a água quente escorrer. Estava feliz. Pensou que se Luísa estivesse na cidade, seria uma boa hora para se encontrarem. Sábado à noite, clima fresco, Santiago dormindo e uma pequena agitação na rua, do lado de fora. Seria maravilhoso estar tomando banho pra ela, perfumando-se pra ela, pensando em algo gostoso para comerem. Mariana escutou o telefone tocando e saiu correndo do chuveiro, com a água pingando pelo chão. Era o Carlos a chamando para beber alguma coisa com ele e a Clara:

- Não posso, o Tiago está aqui em casa hoje.

Carlos tentou insistir. Sugeriu levar o menino junto. Mariana achou graça:

- Carlos… Impossível, ele está dormindo. Mas vocês querem beber ou paquerar?

E escutou Carlos perguntar a Clara, longe do telefone, se ela queria beber ou ir à caça. Escutou Clara rindo. Como Carlos podia ser tão indiscreto? Pensou.

- Queremos só beber mesmo.

- Então por que vocês não vêm aqui? Tenho um monte de bebida na geladeira. Só não sei o que podemos comer – disse, procurando nos armários.

Em meia hora chegariam. Combinaram que os dois levariam algum tira-gosto.

Mariana terminou de se arrumar. Vestiu calça jeans, blusa vermelha, um pouco cavada e um casaquinho por cima. Perfumou-se, colocou brincos, penteou os cabelos e só. Nem deu tempo de secar e os dois chegaram. Carlos super animado foi entrando, familiarizado com o apartamento, ajeitou o sofá, pegou cadeiras, ligou o som bem baixinho. Clara pediu para conhecer o menino. Mariana a levou até o quarto. Ela andou devagar em direção à cama, cuidando para não fazer barulho e ajoelhou-se na beirada. Mariana aproximou-se também.

- Menino lindo. Dá muito trabalho? – perguntou em voz baixa.

- Quase nenhum. É uma criança bem tranqüila.

Clara acariciou o rosto do menino, delicadamente. Mariana ficou olhando a maneira dela tocar, meio paralisada. De repente despertou:

- Vamos pra sala?

Clara concordou. Quando voltaram pra sala, Carlos estava com mais dois amigos.

Mariana assustou-se:

- Meu Deus – disse, sorrindo.

Os abraçou e sentaram pra conversar. E conversaram muito. Mariana às vezes olhava para Clara. De cabelo preso, liso, postura corretíssima, aparência de mulher disciplinada e umas piadas de humor negro. Mariana gostava do jeito dela, de algumas coisas que ela dizia. Nem viram o tempo passar. A bebida acabou antes das duas da madrugada. Sobre a mesa, apenas uns pedacinhos de queijo:

- Vamos comprar mais – sugeriu um dos amigos de Carlos, entusiasmado.

- De jeito nenhum. Agora vamos deixar a Mariana descansar – disse Carlos, já se levantando para se despedir.

- Imagina, não tem problema. Se vocês quiserem sair pra comprar mais…

Carlos aproximou-se e cochichou no ouvido de Mariana:

- Mariana, não dá corda pra esses caras, senão eles só saem daqui amanhã de manhã…

- É mentira, seja lá o que ele estiver dizendo – disse um gordinho, rindo à beça.

Os rapazes se aquietaram e se despediram de Mariana. Mariana olhou para Clara.

Será que ela iria com eles? Clara então, meio sem jeito, ofereceu-se para ajudar a arrumar a bagunça. Carlos conteve-se muito para não se meter. Sabia que Mariana ficaria chateada se ele dissesse alguma coisa errada. Ficou apenas esperando na porta.

- Você me ajuda, então? – perguntou Mariana, dizendo uma espécie de sim.

Carlos mandou beijos e foi embora, batendo a porta. Mariana sentiu um frio na barriga ao ficar ali sozinha com a Clara. As duas olharam para a mesa cheia de copos e travessas.

- Sempre as mulheres acabam ficando com esse serviço, não tem jeito – disse

Clara, quebrando um pouco o gelo.

As duas levaram tudo para a cozinha e colocaram na pia. Quando Mariana dizia alguma coisa, Clara a olhava com aqueles olhos azuis, atentos, enquanto ensaboavam os copos, lado a lado. Quando a olhava de perfil, Mariana a achava uma mulher bonita. Mariana se sentia atraída, sabia disso. Mas às vezes parecia doer desejar outra que não fosse Luísa. O serviço acabou rápido. Mariana levou

Clara até a porta:

- Posso voltar algum dia, para ver o Santiago acordado? – perguntou.

- Claro que pode. Todos os finais de semana ele está aqui.

Clara estava demorando na porta. Ficaram em silêncio um segundo. Mariana continuou fingindo que não notava que Clara gostava dela.

- Vem com o Carlos um dia, ele sempre aparece.

- Tudo bem – disse Clara, notando bem o significado daquela frase: Mariana não estava interessada.

Abraçou Mariana e saiu. Mas fez exatamente assim. No outro sábado, apareceu com Carlos. Iam preparar uma macarronada que Tiago adorava. Mariana os recebeu, animada. O menino já tinha bastante intimidade com Carlos, pulava no colo, fazia bagunça.

- Tiago, vem aqui conhecer a Clara.

O menino veio correndo. Parou e sorriu. Clara o pegou no colo. E os quatro foram para cozinha preparar o almoço. Mariana sabia bem quando Tiago achava uma mulher bonita. Ele ficava com um sorriso diferente e exibia-se o tempo todo.

Assim fez com Clara, além de desenhar flores para ela. Ele tem bom gosto, pensou, rindo de seus próprios pensamentos. Todos se sentaram e serviram-se. Mariana olhou para todos ali em volta e sentiu-se feliz. Tudo estava perfeito. A primeira semana do menino na escola tinha corrido bem. Além do emprego, Mariana tinha recebido um convite para dar aula de história no ensino médio, estava mais estabilizada financeiramente, fazendo planos. Carlos era mais que um amigo, praticamente um irmão.

Os dois ficaram até tarde. Como era de costume, Carlos saía sábado à noite.

Gostava de ir a boates e foi pra casa às oito da noite pra se arrumar. Clara mais uma vez ficou. Mas desta vez Mariana não a deixou fazer nenhum serviço:

- De jeito nenhum. Hoje não vamos fazer nada. Segunda-feira a moça vem e limpa.

Clara apenas sorriu, segurando os desenhos que Santiago não parava de fazer pra ela. Mariana procurou o menino:

- Tiago, vai pro chuveiro.

O menino correu em direção ao banheiro.

- Ele toma banho sozinho?

- Praticamente. Só preciso lavar a cabeça, senão ele não faz direito.

Mariana foi até o banheiro lavar o cabelo do menino. E voltou pra cozinha:

- Ele quer merengue. Esse doce é puro açúcar. Ele adora – dizia, já pegando os ovos pra preparar claras em neve – pega o açúcar pra mim, por favor?

Clara entregou o pote de açúcar, sorridente. O menino gritou lá de dentro:

- Mari, acabei!

- Tira ele de lá pra mim, por favor? O roupão está atrás da porta.

Clara o tirou do chuveiro e escolheu um pijama. Os três foram para a sala comer o doce. Mariana colocou uma colher de merengue com um pouco de gelatina vermelha pra cada um. O menino comia devagarzinho assistindo desenho. Mariana olhou para Clara ali do lado. Já era quase nove horas. Apoiou as costas no encosto e relaxou:

- Gosto do cheirinho que ele fica quando come esse doce – disse Mariana, sorrindo

- vem cá, meu amor.

E cheirou o rostinho do menino:

- Que delícia, Tiago.

O menino riu. Gostava dessa brincadeira de Mariana. Clara fez o mesmo com ele:

- Deixa ver.

E o pegou no colo:

- Nossa!!! Cheiroso. Cheiro de açúcar.

E o largou no sofá de novo. Santiago pediu, com a boca cheia de gelatina:

- Deixa ver você, Mari.

E meteu o nariz na boca de Mariana, desajeitado. Mariana se assustou, e riu. Clara riu também.

- Tá cheirosa também – insistiu o menino, deixando Mariana sem graça.

Pra piorar, ainda disse:

- Cheira ela, Clara, pra você ver.

As duas ficaram mudas e se olharam por um segundo, enquanto o menino revirava o copo de gelatina, já esquecendo o assunto, sem se dar conta do que tinha acabado de fazer. Clara sorriu para Mariana. Mariana sorriu também:

- Terminou Tiago? Hora de escovar os dentes. Bem escovados.

Levantou-se para levá-lo ao banheiro:

- Preciso ajudá-lo a escovar os dentes, já volto.

Colocou o menino pra dormir e voltou pra sala, desligou o vídeo. Sentou-se ao lado de Clara.

- Nossa, Mariana, você é tão nova… Eu fico vendo o amor que você dá a essa criança…

- Eu gosto de estar com ele, me sinto feliz. Pra falar a verdade, eu queria muito mais…

Mariana encostou a cabeça na parede e ficou pensando. De repente levantou-se:

- Espera, vou até o quarto ver se ele está bem.

Voltou correndo e sentou-se mais perto ainda.

- Ele está dormindo.

E continuou o assunto:

- Vou te contar uma coisa, Clara – disse, virando-se pra ela.

E a olhou bem fundo nos olhos:

- Cada dia que passa é mais difícil devolvê-lo à avó – disse cabisbaixa, como se aquilo fosse um grande pecado.

Clara sorriu e a abraçou para confortá-la. Mas o abraço foi além do normal. Clara agarrou as costas de Mariana e a segurou forte e suavemente. Ainda abraçada, beijou o rosto da menina e ficaram se olhando intensamente por alguns instantes.

Mariana, respirando com dificuldade, livrou-se delicadamente dos braços daquela mulher. Clara deu um sorriso meio triste. Já havia entendido tudo. Era inteligente o suficiente:

- Desculpa.

Arrumou os cabelos, segurou a respiração.

- É melhor eu ir.

Levantou-se do sofá. Mariana foi atrás, sem saber direito o que dizer. Clara foi até a porta da sala, esperar Mariana abrir. E foi embora, levando junto um bolo de papéis com desenhos de Santiago. Da janela da sala escura, Mariana ficou olhando

Clara lá embaixo entrar no carro e partir. Como posso deixar uma mulher tão bonita ir embora assim? Pensou, vendo o carro dobrar na esquina. Cobriu o rosto com as mãos, quase chorou lembrando-se de Luísa. Meu amor, eu preciso de você, pensou, sozinha, confusa, sentada no chão da sala.

This post have 8 Comments. Would you like add one?

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  • Jeh - 20 de junho de 2010

    Que estranhoo.. Cada vez mais me identifico com o conto..
    Não demora muito pros proximos cap. nao ein =p

  • Eni - 20 de junho de 2010

    Taty,

    Será que agora ela vai se deixar levar pela vida e vivê-la? Pois a vida é para ser vivida certo?!! E então vamos esperar o próximo capitulo tá ficando cada vez melhor, o duro é esperar.
    bjs
    Eni

  • cátia - 19 de junho de 2010

    retificando: Mariana uma eterna romantica como eu.
    beijos

  • cátia - 19 de junho de 2010

    Aqui naõ caberia outra se não essa:

    Cadê meu bem?

    As nuvens passam
    a chuva vem
    cadê meu bem?

    As estrelas chegam
    a noite vem
    cadê meu bem?

    O sol se aproxima
    a manhã vem
    cadê meu bem?

    Crianças na praça
    cachorros latem
    cadê meu bem?

    Carros atravessam
    sirenes tocam
    cadê meu bem?

    Na tela o filme
    beijos trocam
    cadê meu bem?

    No palco a cena
    um vai e vem
    cadê meu bem?

    A vida passa
    as horas também
    cadê meu bem?

    Não há ilusão
    quando há coração
    meu bem passa não!

    Nos olhos percebe
    dos lábios recebe
    doce amor se bebe

    Mero encantamento?
    Deslumbramento?
    Apenas um real momento.

    Longa estrada percorro
    desejo socorro
    dos seus olhos não corro.

    Hei de vê-lo
    meu coração precente
    insistente.
    Para que seja permanente.

    Mais uma vez parabéns, doida pra saber onde vai dar isso…ai Luisa um romantica eterna como eu..
    beijos no seu coração amiga minha.

  • Brunella França - 19 de junho de 2010

    Ah, Mariana… Tão determinada, tão apaixonada e apaixonante… Tudo que fica é cadê Luísa? Por que, Luísa?

    Cada vez que chego aqui, o desejo é de ter mais e mais capítulos os quais comentar!

    beijos Tati

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