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Capítulo 38: De volta pra casa

 (por CarolF, adicionado em 17 de Janeiro de 2004)

Santiago entrou de férias. A rotina de visitas mudou um pouco. Algumas vezes o menino passava dias da semana, outras o final de semana. Mariana tinha muito trabalho nos últimos meses do ano. Carlos às vezes buscava Santiago, jogava vídeo-game com ele ou o levava para o futebol. Clara também aparecia, preparava algo para comerem e mimava bastante o menino, que era louco por ela. Mas na maioria das vezes Mariana ficava sozinha com Tiago, trabalhando no computador enquanto ele se distraía com brinquedos ou desenho animado. Quando podia, fazia cafuné até ele adormecer. Nunca nenhuma criança havia a encantado tanto quanto ele. Para Mariana, Santiago tinha um brilho especial, um valor especial.

- Vem, meu amor, estamos atrasados – disse Mariana, pegando a chave do carro.

Santiago tentava amarrar o cadarço. Era quarta-feira, já quase dez da noite. Mariana iria levá-lo de volta pra casa da avó. Abriu a porta e ficou esperando. Tiago tentava obstinadamente fazer um laço, enquanto a menina esperava encostada na porta.

- Quer ajuda? – perguntou indo direção à sala.

Abaixou-se para ajudá-lo, já segurando sobre as mãozinhas para fazerem o laço juntos, mas foi surpreendida por um empurrão e choro, aparentemente sem causa. Mariana levantou-se e Tiago ficou no chão, com aquele choro sofrido e manhoso de criança:

- Tudo bem, não precisa chorar. Eu espero.

Mas pelo visto ele não queria mais amarrar os sapatos. Foi pelo corredor chorando, pro quarto de Mariana chorar em paz. Mariana sorriu, vendo aquela criança pequena teimosa indo pro quarto. Foi atrás dele. Deitou do lado e o abraçou, esperando passar. Ele já estava suado de tanto chorar e Mariana pacientemente esperava o menino se acalmar, preocupada com o horário. E ele dormiu, com a cabeça quente. Mariana o pegou no colo e o levou pro carro. Mas ele acordou quando Mariana tentava o colocar no banco de trás e chorou de novo. Mariana esfregou os olhos, sem acreditar. Já estava morta de cansaço.

- Santiago, o que foi agora?

E o menino não dizia nada, apenas chorava aquele drama interminável de criança. Mariana era incapaz de forçá-lo a fazer qualquer coisa, mas descontrolou-se e o segurou pelos braços:

- Santiago, me fala agora o que foi! – disse Mariana, impaciente.

- Não quero ir – disse o menino.

Mariana espantou-se:

- Você tem que ir, Tiago. A vovó está te esperando.

- Mas eu não quero – disse, em prantos, com os olhinhos vermelhos.

- Mas ela vai ficar triste se você não for. Vai ficar preocupada…

Santiago continuou choroso. Mariana baixou a cabeça, sem acreditar no que Santiago dizia. Ele nunca havia feito essas coisas.

- Toda hora você me leva de volta – continuou dizendo o menino.

- É a sua casa, Tiago. Você não quer voltar?

- Não.

- Por que não?

- Porque eu não quero – disse, chorando ainda mais como se Mariana fosse o obrigar a fazer alguma coisa.

- Tudo bem, então vamos voltar – disse Mariana, blefando.

E contrariando o esperado o menino segurou na mão de Mariana e subiu de volta, satisfeito, sem dizer uma palavra. E assim que Mariana abriu a porta, ele correu para o escritório, acendeu o abajur e deitou em sua cama. Mariana ficou apenas olhando o menino se enrolar nas cobertas, sem saber o que fazer.

Depois daquele dia, o menino não quis mais sair da casa de Mariana, causando grande desconforto entre ela e a avó. Primeiro Mariana tentou esperar o menino esquecer o assunto, mas toda vez era choro e tormento. Mariana sentia-se constrangida e responsável por tudo aquilo e conversou sério com a avó, deixando claro que não tinha intenção de afastá-lo dela. Era impossível para Mariana tratar desse assunto de maneira leviana. A velha senhora apenas a olhava de maneira quase apática:

- Eu acho que seria melhor pra ele ficar com você… – disse a avó.

Mariana a olhou apavorada e segurou forte em suas mãos.

- Não, não, não – disse rouca de desespero – ele precisa da senhora…

Apesar da aparência menina imatura Mariana era uma mulher de muita fibra. A velha se soltou das mãos de Mariana, deu dois passos pela cozinha. Não tinha ilusões nem sonhos, era desgastada pela vida, calejada e dura.

- Sabe há quanto tempo à mãe dele não aparece?

Mariana ficou em silêncio. A velha repetiu a pergunta.

- Sabe há quanto tempo o Tiago não vê a mãe?

- Não sei – respondeu Mariana, confusa.

- Há mais de dois anos, menina.

Mariana ficou em silêncio de novo, sem saber o que dizer. Na verdade, já desconfiava. O menino parecia não saber quem era a mãe. A senhora se aproximou de Mariana:

- Fica com ele – disse, de maneira trivial, como se a estivesse presenteando com um livro antes emprestado.

Mariana não acreditou que ela estava entregando o menino assim. Na opinião de Carlos, essas pessoas viviam tão precariamente e desamparadas que não compreendiam a dimensão exata de suas atitudes. Mariana respirou fundo, engoliu tudo aquilo, chegando quase a travar no pescoço.

- Tudo bem – disse, juntando a bolsa ao corpo – a hora que a senhora perceber bem o que está fazendo, me liga que eu o trago de volta.

Meio sem rumo, foi em direção à porta. Antes que pudesse sair, a velha disse:

- Não estou falando por causa do dinheiro, Mariana. Estou falando porque você foi a pessoa que mais deu amor a ele.

Mariana a olhou, um pouco arrasada e confusa diante de tudo aquilo e foi embora.

 Capítulo 39: A fuga

 (por CarolF, adicionado em 25 de Janeiro de 2004)

 

Irresponsável, pensava, dirigindo apressada, contornando entre os carros. Passou no clube para buscar Santiago. Começava a esquentar um pouco e Carlos estava com o menino na piscina. Mariana foi até a grade e os chamou:

- Vamos, Tiago.

Carlos veio correndo com aquele corpo musculoso e molhado e debruçou-se sobre a grade.

- Vem tomar um sol com a gente – convidou, animado.

- Que sol, Carlos? – perguntou Mariana, rindo.

Carlos olhou pro céu.

- Esse aí que você está vendo. Já estamos bronzeados, né Tiago?

O céu estava cinzento com pouca de luz de sol. Mariana olhou pro menino, com o cabelo molhado e a boca roxa de frio, branco feito papel.

- Sim, estou vendo – disse, com ironia – vamos embora, Tiago.

Carlos passou o menino por cima da grade e o entregou a Mariana. Depois buscou a mochila e entregou também.

- Tchau, Carlos. Obrigada. Depois te ligo.

Mariana amarrou o roupão e foi embora com Tiago no colo, ainda pensando em tudo o que a avó havia dito. Passou dias com aquilo martelando na cabeça. Teria que tomar uma atitude cedo ou tarde. Tinha duas alternativas: ou tentar convencê-lo a voltar para a avó, ou ficar com ele. Talvez fosse só um capricho de criança. Mariana entendia Santiago, só não entendia a avó ter desistido do menino assim tão facilmente.

Mariana ficou inconformada por muitos dias. Queria convencer Tiago a voltar para a avó. Achava que os laços de sangue eram importantes para a criança. Quem sabe ficando com o menino mais um tempo ela mudasse de idéia. Tentaria tudo e se ele não concordasse ela o levaria à força ou enquanto estivesse dormindo, se bem que nos últimos dias o menino parecia dormir em vigília. Teve uma idéia. Chamou Tiago para prepararem juntos uma torta para presentear a avó. O menino ficou entusiasmado. Os dois passaram uma tarde inteira na cozinha preparando o tal presente e colocaram pra gelar enquanto tomavam banho. Mariana penteava os cabelos molhados do menino e pensava em tudo. Que bom que ele tinha aceitado ir.

- A vovó vai ficar muito feliz em te ver – disse Mariana, confiante.

Mariana desejava muito que desse certo. Os dois entraram no carro e seguiram caminho. O menino estava ansioso como toda criança, perguntando a todo o momento quanto tempo faltava pra chegar. Mariana parou o carro e desceu sobre a terra marrom.

- Vamos, Tiago…

O menino segurava forte a mão de Mariana. Uma mulher da casa ao lado, que descansava numa cadeira, observou os dois entrando pela pequena trilha de pedras. Mariana bateu na porta e naquele exato momento teve uma sensação ruim. Bateu mais forte. Olhou pra trás. A mulher da cadeira a observava. Tentou abrir, mas estava trancada. Olhou pra trás de novo. A mulher continuava olhando.

- Espera aqui um pouco, Tiago. Senta aqui.

O menino sentou nos degraus que antecediam a porta e ficou segurando o pacote. Mariana caminhou até a mulher da cadeira.

- Oi, boa tarde.

- Boa tarde – disse a mulher, levantando-se, com certa apreensão.

- Sabe onde está a avó do garoto? – perguntou Mariana, já quase adivinhando a resposta.

- Foi embora há uma semana.

Mariana ficou estática, olhando incrédula para aquela desconhecida.

- Ela deixou uma coisa pra você… – disse.

A mulher entrou numa porta ali do lado e voltou com um pequeno envelope surrado. As duas ficaram se olhando. Mariana pegou o envelope e abriu nervosa, quase rasgando junto o conteúdo. Dentro dele, a certidão de nascimento e a carteira de vacinação do menino. Mariana olhou pro outro lado. Lá estava Santiago esperando.

- Sabe para onde ela foi?

A mulher balançou a cabeça, dizendo que não. Mariana continuou inconformada e perguntou novamente, muito preocupada.

- Pelo amor de Deus, tem idéia ou não de onde ela possa estar?

A mulher sentou-se novamente, sem paciência, querendo encerrar o assunto.

- Não sei menina. Não sei da vida dela. Ela só me pediu que entregasse o envelope.

- Ótimo. Então a senhora é testemunha que ela abandonou a criança – disse Mariana, perturbada.

Andou até Santiago, apressada, o segurou pela mão.

- Vamos embora.

Mariana não conseguia dizer uma única palavra. O menino também ficou calado, olhando pela janela. Mariana sentiu uma das sensações mais perturbadoras de sua vida. Um vazio esquisito, incômodo. Sentia muito por Santiago. Ele era muito observador, provavelmente percebeu exatamente o que estava acontecendo.

- E agora quem vai comer a torta? – perguntou o menino, de repente.

Mariana o olhou pelo espelho.

- Eu, você e a Clara. Que tal?

O menino sorriu, achando talvez uma boa idéia. Mariana continuou dirigindo lentamente, tentando recuperar os sentidos, como se tivesse acabado de levar uma pancada na cabeça. Chegaram em casa. Mariana serviu torta ao menino e o colocou para assistir desenho. Sentia-se pesada. Entrou no banheiro, encostou a porta e chorou debruçada sobre a pia. Não sabia por que estava com tanto medo. Derramou ali toda a sua dor.

Já era muito tarde. Mariana lavou o rosto com água fria e caminhou por todo o apartamento, tentando encontrar respostas. Foi até a sala escura e viu Santiago dormindo, sem escovar os dentes. Mariana o pegou no colo e o menino se prendeu em seu corpo e deitou a cabecinha em seus ombros. Mariana o levou até a cama e deitou-se bem ao lado, o abraçando, acariciando seus cabelos. O abraçou mais forte e se aconchegou, agarrada a ele, puxando os lençóis. Os dois dormiram, com a TV ligada e a torta fora da geladeira.

This post have 2 Comments. Would you like add one?

  • Eni - 29 de junho de 2010

    Taty,

    Linda passagem, isso acontence em diversos pedacinhos do nosso Brasil, pela miséria as pessoas entregam seus filhos , esperando que tenham uma vida melhor. Triste realidade mostradas nessas linhas.
    parabéns mais uma vez..

    …cadê o próximo…rs..

    bjs
    Eni

  • cátia - 28 de junho de 2010

    Mas pelo visto ele não queria mais amarrar os sapatos. Foi pelo corredor chorando, pro quarto de Mariana chorar em paz. Mariana sorriu, vendo aquela criança pequena teimosa indo pro quarto. Foi atrás dele. Deitou do lado e o abraçou, esperando passar.

    Esta parte é de uma delicadeza e realidade!!!
    Me deparo todos os dias com esse tipo de cena na escola…pequenos e tão reais em suas emoções!
    Voce amiga não esta escrevendo apenas um romance mas abordando um tema muito real em nossa sociedade e entre os seres humanos. Uma mistura de miséria social com desumanidade, uma entrega e a criança ali naquele meio.
    Parabéns mais uma vez! Este romance tem um enredo, um conteudo sem palavras!
    Cada dia amando mais!
    beijos

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