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Capítulo 40: Fronteira do amor
(por CarolF, adicionado em 25 de Janeiro de 2004)
Nesse período conturbado Clara ficou um pouco esquecida. Mariana estava imersa num mundo de preocupações e desafios. Pretendia consultar um advogado o quanto antes, mas acabava adiando dia após dia. Inconscientemente tinha medo que tirassem a criança de perto dela. Passava horas no computador enquanto Santiago brincava no escritório. Apesar de adorar quando Clara aparecia, dificilmente a procurava. Duas noites tentaram marcar um encontro, mas acabou não dando certo. Mariana começou a perceber que Clara havia sumido desde então. Interrompeu o trabalho e resolveu telefonar pra ela. Notou que ela estava mesmo um pouco aborrecida. Clara reclamou que mal conseguia falar com Mariana e as duas não se viam há quase duas semanas:
- Desculpa Clara…
Clara continuou seca:
- Mariana, eu estou cansada. Preciso dormir. É melhor conversarmos pessoalmente, quando você puder.
- Tudo bem – respondeu Mariana.
Clara desligou. Mariana ficou quieta, chateada. Perdeu a vontade de continuar no computador. Já era quase dez da noite. Ficou pensando em Clara, se ela ainda estaria magoada. Provavelmente sim, então decidiu fazer uma surpresa:
- Tiago, calça o tênis. Vamos visitar a Clara.
Os dois saíram rumo ao apartamento de Clara. E lá estava ela, de cabelos soltos, pronta pra dormir. Abraçou Mariana e olhou bem pra baixo, onde estava o menino.
- Vocês dois sempre juntos… – disse, com um sorriso triste.
Mariana entrou. Clara ofereceu chocolate quente. Santiago aceitou e pulou no sofá, no meio das duas, segurando a xícara.
- Me abraça Clara. Desculpa…
As duas se abraçaram, com o menino apertado entre elas. Mariana beijou o rosto de Clara e sentiu de perto o perfume suave de sua pele. Clara continuou distante. Mariana acariciou seus cabelos. Santiago fez o mesmo, imitando-a. Clara sorriu.
- Mariana, não tem como ele ir pro quarto pra gente poder conversar mais à vontade?
- Tudo bem – disse Mariana, olhando para o menino – Tiago, vai lá pro quarto da Clara um pouquinho?
O menino não quis.
- Tiago, por favor – disse Mariana.
Clara levantou-se. Mariana notou que ela estava muito impaciente.
- Clara o que foi?
- Desculpa Mariana, mas não dá pra conversar sobre a nossa vida com uma criança no meio – respondeu, olhando pela janela.
- Santiago, vai lá pra dentro, por favor… – disse Mariana mais uma vez.
O menino continuou tomando o leite e lambendo os lábios, se fazendo de desentendido.
- É melhor vocês irem embora, Mariana – disse Clara, irritada além do normal.
Mariana explodiu:
- Santiago, faz o que eu estou mandando! – gritou.
O menino assustou-se e foi quase correndo pelo corredor, tentando equilibrar a xícara, mas deixando cair leite pelo meio do caminho. Mariana tapou o rosto, aborrecida.
- Satisfeita por eu ter gritado com ele? – perguntou, transtornada.
- Esse menino não te obedece, Mariana. Agora porque ele não quer mais voltar pra casa você tem que ficar com ele?
Mariana ficou sem palavras. Sentou no sofá e tapou o rosto. Clara sentou-se ao lado e segurou suas mãos:
- Mariana, essa criança é muita responsabilidade pra você…
Mariana a olhou bem.
- A avó dele foi embora, Clara. Ele só tem a mim… – explicou, com cuidado.
Clara percebeu a dor de Mariana e acariciou seus cabelos.
- Mariana… Sinto muito… – disse, com a voz mais branda.
Clara beijou os lábios de Mariana, bem de leve, voltando em seguida ao assunto.
- E o que você pretende fazer agora?
- Eu vou adotá-lo – respondeu Mariana, segura do que estava dizendo.
Clara ficou surpresa e levantou-se do sofá, atordoada.
- Você é muito nova, Mariana… Não pode se responsabilizar por essa criança. Ele não tem nem idade para ser seu filho – disse, quase gritando.
- Dane-se, Clara! – respondeu Mariana, irritada.
E levantou-se também, nervosa.
- Eu vou adotá-lo sim e é bom que você saiba disso. Ninguém mais vai desprezá-lo como eu tanto vi e ainda vejo… – disse Mariana, com os olhos cravados em Clara, como se a acusasse também.
A conversa estava tensa. Clara, apesar de saber da forte ligação que Mariana tinha com o menino, não estava preparada para aquela notícia, muito menos para ser responsabilizada por um problema que não era seu. Respirou fundo, tentando se acalmar:
- Mariana, pensa bem, pois essa é uma decisão importante. É um vínculo para o resto da vida! – disse, tentando olhar Mariana bem dentro dos olhos
Mariana desviava o olhar. Não queria encarar aqueles olhos azuis que tentavam convencê-la a mudar de idéia. Baixou mais uma vez a cabeça, deixando os ombros caírem, aborrecida por estar ouvindo aquilo tudo:
- Clara, eu já tenho um vínculo com ele para o resto da vida.
As duas ficaram no mais completo silêncio diante do impasse. Mariana olhou o corredor com o leite derramado. Os olhos frios de Clara ficaram perdidos pelas paredes. Num determinado momento, quando o silêncio já estava quase insuportável, os olhos das duas se cruzaram.
- Sinto muito, Clara. Mas já está decidido. A única coisa que você pode fazer agora é torcer para que eu não consiga.
Clara olhou bem para Mariana.
- Se você quer Mariana, eu jamais irei torcer contra. Mas se você tomou essa decisão sozinha, prepare-se para enfrentar sozinha também.
Mariana entendeu bem o significado do que Clara acabava de dizer. Clara afastou-se de Mariana, para outro canto da sala.
- Eu não estou preparada ainda, Mariana. Desculpa.
Mariana sorriu, com certa ironia.
- É claro. Como eu poderia exigir isso de você né, Clara? Mas eu enfrento sozinha, como sempre fiz, pode deixar.
Enxugou as lágrimas antes que pudessem escorrer pelo rosto e foi pelo corredor buscar o menino. Santiago estava deitado sobre a cama de Clara, um pouco sonolento.
- Desculpa Tiago – disse Mariana, sentindo-se culpada por ter gritado.
O pegou no colo com esforço e voltou pra sala. Ficou parada, esperando Clara abrir a porta. Queria ir logo embora, sumir dali. Clara sabia se fazer de indiferente com perfeição. Mariana atravessou a porta e partiu, se sentindo incompreendida.
O menino adormeceu durante o trajeto. Mariana lembrava quantas vezes já esteve assim sozinha, dirigindo. Às vezes Luísa parecia ser culpada por tudo de errado que acontecia. Mariana, ao invés de ficar ressentida com Clara, ficou ressentida com Luísa mais uma vez, como se ela tivesse feito duas vezes a mesma coisa, como se ela fosse a culpada outra vez. Mariana chegou em casa furiosa, com as veias dilatadas, colocou Santiago no escritório e foi para sua cama chorar. Mas antes que a primeira lágrima pudesse cair, sentiu o perfume de Clara batendo como um soco no nariz. Levantou-se e arrancou os lençóis violentamente e depois as fronhas, uma a uma, juntou tudo nos braços e, aos trancos, enfiou na máquina de lavar roupa, batendo a tampa com força. Tomada ainda por aquele sentimento todo, num impulso, abriu a gaveta do armário e pegou as fotos de Luísa, girando os pulsos para rasgá-las por completo, mas algo trancou seus braços antes que pudessem terminar. Ela parou ofegante. O sorriso de Luísa brilhava na foto entre seus dedos. Mariana olhou, sentindo um aperto no peito. Tomou fôlego e com mais força ainda rasgou tudo e amassou os pedaços duros que sobraram. Depois atirou dentro da lixeira tão descontrolada que metade caiu pro lado de fora. Mariana ajoelhou-se no chão e começou a chorar. Lembrava-se de estar sempre assim triste. Tinha chorado tanto nas últimas semanas que não agüentava mais. Não queria mais sofrer. Não permitiria mais, nunca mais, que ninguém a machucasse. As lágrimas escorriam, uma a uma até aliviar um pouco.
Mariana olhou os pedaços das fotos pelo chão. Sentia-se mais calma, porém exausta. Caminhou lentamente para o chuveiro e lá ficou deixando a água quente escorrer pelo corpo. Estava esgotada. Deitou-se junto com Santiago, sentindo a maciez do travesseiro. O abraçou forte e inspirou o cheiro bom dos cabelos. Sentia-se segura ali ao lado dele. Sempre foi assim. Ficou tentando se acalmar por muito tempo, até seu corpo se render ao cansaço e dormir.







Taty,
Existem decisões na vida que do tomamos não temos como voltar atras, e essa menina está abrindo mão de sua vida pessoal , para dar amor ao um menino que sofreu pela falta de carinho. Um sentimento muito nobre e dificil de encontrar nos dias de hoje. Abrir mão da vida pessoal.
Parabéns esse romance nos faz pensar na realidade de um povo ue nasce, cresce e sofre até encontrar um anjo para salvá-los.
bjs
eni