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Seus lábios se tocaram e tudo ali – dor, raiva, medos, inseguranças – se esvaiu, pois o fato de estarem juntas desfazia todo e qualquer receio de viver. O pai de Teresa entrou e, no meio daquela cena, ficou constrangido, mas se aproximou mesmo assim. Sabia que não era hora de criar nenhum clima de insatisfação ou interrogatórios. Teresa manteve Antonia ali ao seu lado e olhou para o pai, aguardando sua fala.

Ele a abraçou meio sem jeito e lhe disse que estava preocupado com quem cuidaria dela e como ela ficaria. Ao término de sua fala, percebeu a grande besteira que disse, mas as palavras já haviam saído. Antonia se manifestou dizendo que quem olharia Teresa – e muito bem – era ela, sua esposa! Estava indignada com tamanho desaforo de seu sogro – sogro nada!! – daquele homem sem sensibilidade e ignorante! Antonia assim se manifestou por saber como o pai de Teresa via sua relação com a moça e já tinham tido outros encontros desgastantes.

Teresa agiu com toda a calma do mundo, por saber que isso fazia parte de sua história desde quando revelou aos pais sua preferência sexual, seus sonhos e desejos e percebeu o quanto isso tudo era diferente dos sonhos deles… Uma filha linda entrando em uma igreja com um homem esperado também por eles – isso desde os 15 anos! Respondeu que sim, concordando com Antonia e dizendo que ele não precisava se preocupar, pois elas tinham tudo em casa e claro ele podia visitá-las se quisesse.

A relação dos dois nunca foi um mar de rosas, mas desde que a mãe de Teresa faleceu, ele vinha tentando se ajustar com a filha e estreitar seus laços, sem maiores conflitos com sua identidade sexual, mas estava sendo muito difícil.

Desde os 12 anos Teresa era muito independente e irreverente e, quando se posicionava, já era fato consumado e pronto! Os conflitos de seu pai com ela já vinham antes mesmo dela compreender sua homoafetividade.

Ele se despediu e disse que ligaria depois. Ao sair, cruzou na porta com os pais de Antonia, que chegaram de mansinho e abraçaram muito Teresa, dizendo que ela os tinha matado de susto, que a amavam e que isso não era hora de ir embora pra lugar nenhum. Teresa riu e agradeceu, amava muito os pais de Antonia que, ao contrário de seu pai, compreendiam a filha e seu casamento com Teresa. Eles a tratavam como filha e isso sempre a fez ficar mais feliz com Antonia.

Já era tarde quando Teresa e Antonia entravam em casa com pacotes e uma provisória cadeira de rodas que Teresa iria usar até tirar o gesso e estar forte o bastante para andar. Ela ainda usava um colete no pescoço, pois tinha tido uma torção seria e era necessário mantê-lo ereto um bom tempo para evitar males futuros.

Teresa chamou Antonia e disse que queria conversar, perguntando se ela podia parar um pouco os afazeres e sentar-se perto dela.

Antonia se assentou e, sorrindo, beijou levemente os lábios de Teresa, que foi logo dizendo: “Ai, amor, faz isso não… Tô travada… Se beijar mais forte não me responsabilizo pelos meus atos e vou com gesso e tudo… risos”. Antonia lhe beijou mais forte só pra provocá-la, ela riu e disse que estava ficando mole – que era para Antonia parar e ouvi-la, pois o que tinha a falar era importante para as duas e seu futuro.

Teresa perguntou à Antonia se ela tinha o sonho de ser mãe, engravidar ou adotar uma criança. Antonia respondeu que ela sabia muito bem a sua resposta – por que então perguntava novamente? – Bem, disse Teresa, preciso ter uma resposta precisa, pois nesta viagem fiz várias reflexões e, como estamos juntas há quatro anos, acho que já esta na hora de pensarmos em um filho, mas preciso saber se queremos engravidar ou adotar.

Antonia se emocionou com a pergunta e abraçou-a tão forte e tão intensamente que Teresa sentiu o coração bater mais forte. Disse que também estava emocionada e queria muito partilhar essa experiência com ela. Antonia lhe disse que não fazia questão de engravidar, portanto elas poderiam adotar. Teresa então disse que andou pensando nisso e que a adoção seria mais custosa, já que a adoção no caso de casais homoafetivos iniciou-se na década de 90 no Brasil e ainda enfrenta muitas dificuldades. Além disso, também  teriam que contar com um juiz sem preconceitos, a favor da felicidade e do bem estar da criança, e não que se focasse no que ela vai sofrer de influências funestas da homossexualidade, aff!

Antonia compreendeu e concordou. Então perguntou: você quer engravidar? Teresa disse que queria e que poderiam ver isso. Antonia, dando pulos de felicidade, abraçou-a, beijou, ria! – Ai, ai, amor, cuidado! – disse Teresa, com receio de que ela encostasse em seu colete. Neste momento, Teresa olhou nos olhos de Antonia e lhe disse: – Amor, já pensou como será ter um filho e sermos mães?

Amigas e amigos, sintam a felicidade dessas duas e torçam por elas! Todos sabem que a luta dos homossexuais quanto à adoção tem sido árdua e tem tido muitos sucessos. Engravidar também é uma luta em uma sociedade ainda retida no preconceito de crenças desatualizadas e desinformadas, onde não se impera a verdadeira felicidade do ser humano.

Semana que vem tem mais!

Beijos carinhosos.

Cátia Aguiar

This post have 7 Comments. Would you like add one?

  • Eni - 30 de agosto de 2010

    Está ficando cada vez mais emocionante, parabéns!!! Amei espero que apesar do preconceito da sociedade que vivemos e que elas vivem elas consigam realizar esse grande amor.
    bjs

  • Cássia - 26 de agosto de 2010

    Eu estava evitando voltar aki e continuar a ler essa historia e hj,enquanto eu lia, lembrei de alguém que amei muito e que pra realizar um sonho engravidou de fato, fiquei imensamente feliz qdo me contou apesar das circustancias q aconteceu, infelizmente ela perdeu a criança qdo estava com 5meses e 1ano depois eu a perde num seguestro relanpago.
    Então pode imginar né!

    Catia vc esta de parabéns mais uma vez me emocionou.

    Obrigado!

  • Dulce de Melo - 26 de agosto de 2010

    A saga continua, importante que há uma reflexão ímpar, toda sua essência transparesse por ai. Bom, foi o que vi. Parabéns, é ótimo deixar o coração vazar.
    Beijos

  • Avassaladora - 25 de agosto de 2010

    Hey Catita!

    Demais, demais, demais!

    Estou amando a história – você é “tudibão”!

    Talento visível!!!

    Bitocas…. avassaladoras!

  • Adria - 25 de agosto de 2010

    Greetings! Is it alright that I go a bit off topic? I am trying to read your site on my iPhone but it doesn’t display properly, do you have any suggestions? Thank you for the help I hope! Adria

  • Taty - 24 de agosto de 2010

    Cátia querida,
    Sempre nos oferecendo histórias lindas e cheias de significado!
    Parabéns, você é incrível!
    Beijos!

  • Marilia - 24 de agosto de 2010

    LINDO!!!! Ainda há esperança, ainda há felicidade, ainda há seres no mundo como você, querida Catia, que podem nos alegrar com palavras, com apoio, com emoção.

    Obrigado por compartilhar!!!

    Obrigado por tudo, SEMPRE!!!

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