Hoje trago escritos de outrora… Não menos sentidos ou vividos…
Um tanto diferente dos contextos atuais, mas sou assim… essa metamorfose.

Por volta das sete horas entraram juntos no coletivo. Resolveu sair mais cedo, de tão ansiosa que estava para ver o resultado do exame que sairia hoje.
O pequenino foi com ela, embora apresentasse clara insatisfação por levá-lo. Por segurança o colocou a sua frente ao entrar no ônibus. Suas pequenas pernas sofriam para subir tão altos degraus, no entanto, tudo se tornou motivo para diversão. Sua felicidade era radiante… A alegria dos inocentes!
Alegria essa, que parecia não perceber ou não se importar com o ar aborrecido dela. Pois bem, além de indesejado, ele estava feliz. Há algo mais imperdoável para um aborrecido do que a felicidade?
Nesse caso, talvez houvesse, mas ela não saberia precisar.
Nenhum lugar lhe fora oferecido. O garoto não se importou muito em ficar de pé e divertia-se segurando como podia e achando engraçado desequilibrar às vezes.
Suas traquinagens e trejeitos de moleque acabaram por arrancar sorrisos da carrancuda. Ele fazia as mais variadas expressões, tão hilárias que mal poderia entender seus significados. As expressões não refletiam exatamente seus sentimentos, mas eram sinceras. Como? Ora, ele apenas tentava descobrir para que elas serviam.
A viagem seguiu e ambos estavam se cansando. No coletivo inteiro, ninguém se olhava nos olhos, a não ser eles. Nem mesmo as duas senhoras do banco da frente, que falavam mal de cada nome citado na conversa se atentavam.
Ela estava pensando no quanto “a rotina faz as pessoas se comportarem feito gado”, quando o garoto ensaiou um tipo de dança, ao som alto dos fones de um rapaz à sua frente, que dormia encapuzado e abraçado a uma mochila gigantesca.
Ela conteve o riso e gesticulou para que ele ficasse quieto, o que não adiantou muita coisa. E numa freada brusca, o garoto se desequilibrou totalmente. Ao ajudá-lo, ela acabou por esbarrar no rapaz da mochila gigante que acordou de sobressalto.
Os olhos vermelhos olharam em volta com imenso espanto, a boca balbuciou palavras incompreensíveis – provavelmente um palavrão! De repente… Saltou e com suas pernas apressadas passou por entre as pessoas, mas a mochila que a pouco era um afago, agora mais parecia uma âncora. Uma cena de comédia pastelão da qual ninguém ria. Totalmente despercebida pelos figurantes da narrativa.
Enfim… Um lugar vago. Ela se adiantou para sentar e o garoto fez bico, estava cansado. Logo se acomodou e tocou a mão do garoto para trazê-lo e sorriu enquanto o colocava em seu colo.
Ele a olhou novamente, sorriu e adormeceu pouco depois, como se desfrutasse do mais tenro e aconchegante dos leitos.
Um breve cochilo também a pega desprevenida, mas estava nervosa demais com o resultado do exame. Não perderia o ponto por nada. Tanto que, em pouco mais de meia hora, acordou o menino ainda uma parada antes do destino.
Desembarcaram tranquilamente, – salvo pelos protestos do garoto – já que o ônibus estava vazio. Passava das oito da noite. Dessa vez, preferiu levá-lo no colo a ter que diminuir suas passadas.
Viraram na primeira esquina e se dirigiram ao belo prédio do outro lado da rua. O garoto abriu os olhos para contemplar as luzes ofuscadas da fachada, mas não se interessou muito. Estava com sono.
Cansada de carregá-lo, o fez ficar de pé logo depois que subiu a escada. Mesmo assim, sem jeito, ele lhe serviu de um largo sorriso.
No balcão, solicitou a retirada do exame e apresentou seus documentos. Em poucos instantes, ela recebeu o envelope. Agradeceu automaticamente e foi até a porta, talvez buscando alguma privacidade.
Abriu o envelope com derradeiro esforço e cuidado. Fechou os olhos, respirou fundo e leu: “Carla fulana de tal… Idade: 19 anos… método: XXXXXX”.
Uma primeira lágrima rolou pelo seu rosto. Lendo novamente: “NEGATIVO”. Ela descansou e sorriu livre do peso que carregou por dias e dias. Seu mundo voltara a ser o que era.
Feliz, tranqüila, segura… Livre, enfim. Guardou o papel na bolsa e procurou o garoto ao seu redor. Queria abraçá-lo e girar com ele por aquela recepção!
Mas, agora girava sozinha à sua procura. Correu até a rua e não o avistou.
Desesperou-se.
Voltou para dentro a procurar. As recepcionistas a olharam com espanto e certo desprezo.
Então, veio a segunda lágrima. Diferente da anterior, esta ficou contida em seu olho, embaçando a sua visão.
Ela se desculpou com as moças e saiu.
Assim, sozinha embarcou no ônibus das oito e meia. Junto com ela, apenas a punição dos livres: A SAUDADE – até de coisas que nunca existiram.
Postado no Portal A&C em 20/05/2010







Mentora querida!
Um arraso esse teu texto… Profunda reflexão pro nosso dia-a-dia!!!
Curti demais!!!
Bitocas… avassaladoras!
Taty, minha querida!
É uma pessoa metamórfica, cheia de sentimentos lindos que afloram no suave bailar da vida… por vezes esse bailado não é suave, mas quem disse que a lagarta tem facilidade ao se transformar em borboleta.
És uma pessoa incrível, que em meio às tormentas do viver se mantém inteira e colhe a admiração de todos nós!
Um texto como esse só demonstra a beleza que carregas em si. Essa saudade de “coisas que nunca existiram” um dia não mais existirá e o bailar voltará a ser suave!!!
Mue beijo pra você
Taty
Não sei a quem apelar para tirar uma expressão do tipo: “deuses do Olimpo” (acho que encontrei)…
Que texto é este?
Envolvente, e nos fala do dia a dia, do todo dia tão absurdamente normal e de repente nas duas lágrimas do final, você nos surpreende arrancando a nossa (minha) também…
Absolutamente louco! Imprevisível!!!
Adorei…
Beijocas-emocionadas
Querida Taty…
Impossível passar ilesa por seu texto e pelas palavras emocionadas que você descreve…
Certamente, uma grande e valiosa lição!
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante… do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!”
Beijos, com carinho!