Preconceito e campanhas antipreconceito são o item da moda. Porque tudo é moda, mania, às vezes obsessão passageira. Sempre, também em meus romances e contos, combati preconceito: contra os de pele diferente ou outros olhos, cabelo assim ou assado, baixinhos, gordos, menos inteligentes, com qualquer dificuldade física ou lesão mental, ou jeito de amar. Preconceito é inato no ser humano, nasce do medo do diferente, exige lucidez e esforço para ser vencido. Em meu mais recente livro, A Riqueza do Mundo, tenho um capitulo inteiro falando nisso. Se alguém diz que “brancos de olhos azuis” são responsáveis por problemas do país, eu me sinto grandemente atacada. Não posso ser questionada porque há quase três séculos meus antepassados vieram da Europa, não da África, e também não eram índios.
Não acredito em campanhas governamentais pró-anti-qualquer preconceito. Penso que o governo não deve fazer campanhas nesse sentido, mas garantir, de saída e por princípio, o direito de qualquer pessoa ao respeito e dignidade próprios, em todas as questões, desde comida, saúde, escola, moradia, até privacidade e intimidade. Aos diferentes sobrerudo, mas a questão inicial é: quem estabelece o padrão do “diferente”, e “diferente” do quê? Aliás, nossa intimidade anda em segundo plano nesta sociedade, nesta cultura do escrachado, da calça arriada, do olhar devassador (e devastador) estimulado pela internet que eu tanto uso com outros fins.
Por que não tentamos ser simplesmente naturais? Por que achar que somos melhores que os outros, que nossas ideias, postura ou tendências são as que todos deviam seguir? Por que não aceitamos o outro como ele é, quem sabe gago, tímido, gordo, baixo, alto demais, magro demais, talvez lento de raciocínio, possivelmente de outra raça ou credo, ou pobre, ou amando lá do seu jeito? Sem o tratar como coitadinho, que é o que em geral as campanhas fazem – algumas bem – intencionadas. Posso estar errada. Muitas vezes me engano. Não tenho todas as informações. Mas tenho voz nesta coluna, então tento partilhar minhas inquietações. Por isso, aliás, escrevo.
Precisamos preparar nossas crianças, em casa – onde tudo começa, repito mais uma vez, eu que sou repetidora do que me apaixona ou assusta -, na escola, nos grupos, mesmo na universidade, para a aceitação, a parceria em relação a tudo e todos – menos o crime, a corrupção, o mau caráter, o cinismo e a violência. Isto deveria ser natural, até banal, cotidiano, caseiro, constante: respeitar o outro. E começar respeitando a si próprio, sua dignidade, seu corpo, sua natureza, suas possibilidades. Suas dificuldades.
De propósito não estou me prendendo a questões de orientação sexual, mas a tudo: assexuados, sexuados demais, pobres, ricos, obtusos ou de cérebros sofisticados, com tênis de grife ou cambaios, de pele escura ou clarinha – filhos de doutor ou de catador -, todos somos pobres humanos querendo apoio e valorização, tantas vezes submetidos a interesses não confessados de quem no fundo está desinteressado ou expostos à futilidade alheia. A vida já é bem difícil, sobretudo para os jovens que entram neste mundo atrapalhado no qual alguns ditam as regras (que muitas vezes eles mesmos não seguem), comandam o circo, enveredam por caminhos sem conhecer direito o destino e inventam modas sem saber as consequências. O poder, o mando, são pesada carga. Deviam nos fazer, a cada passo, parar um pouco para refletir: sei do que estou falando, conheço o que estou ordenando, entendi qual será o efeito disso que permito ou que estimulo em cada momento?
Não é difícil iniciar e comandar alguma campanha. Há quem grite que não se deve ter “nenhum preconceito, contra coisa nenhuma”. Vamos com calma. Não se pode igualar tudo. Não simpatizo com o dono da verdade, o libertário sem causa, o herói sem preconceitos, o discurso fácil. Eu, sinceramente, tenho – mantenho – preconceito contra algumas coisas: a desonestidade. a arrogância, a irresponsabilidade, o culto do poder estão entre elas.







Concordo plenamente que preconceito ou antipreconceito está na moda.
E pelo que observo moda vem e vai e aqueles que usam não estão muito interessados onde ela vai levar. A maioria a usa para não ficar “por fora”, mas faz sem reflexão. Parece que precisamos começar por nós mesmos perguntando-se: onde escondo o meu preconceito?
Admito que tenho? E começa a tratá-lo seriamente.
não se pode desejar uma mudança para o mundo,se a mesma não aconteceu em mim!
bom texto!
Tati valeu colocar mais um texto informativo ai. As vezes penso no preconceito e meu maior receio não é nem a critica externa a mim, mas o que carregamos da nossa história que esta cheio de conteudos preconcebidos, você nem viveu a situação e já tem medo, porque cresceu ouvindo, ou sentindo uma situação que não é verdadeira.
Libertarmos do preconceito é primeiro aceitar que tem preconceito ai o resto é reconstrução.
beijos
Eu sempre penso nisso quando vejo notícias de treinamento para que se saiba lidar com determinadas faixas da população, no meu ver ele deveria estar pronto para tratarem a todos como ser humano.
Ai depois, eu vejo um delegado batendo em um cadeirante e penso, é falta de treino ou falta de humanidade.
Ótimo texto, bjs!
O preconceito é tudo aquilo que não resolvemos em nós mesmos.
Esta é a verdade para mim.
Podem observar: se uma pessoa preconceitua gay, é porque ela é e não tem a coragem de assumir para si própria – que é o pior.
E por aí vai. É só começar a estudar as reações e vocês verão.
São os pobres de espírito.
Um beijo a todos.
Querida…
Você sabe o quanto achei perfeito esse texto – na verdade, um grande e profundo tapa na cara!!
Muito bom escancarar a realidade assim, de vez em quando, para nunca nos esqueceremos de quem é o preconceito e o que ele significa…
Show!!!
Obrigada por trazer essa bela obra ao Combinação!
Amo a Lya!
Beijo enorme!
Lya Luft,
É sempre um espetáculo de reflexão. Preconceito é perda de tempo, mesmo com tempos avessos. Aversão há que se ter aos de mente tão tacanha que ainda tenham a necessidade tosca de segregar.
Ótimo texto.
Bjks.